Andrea Nunes: crimes reais, ficções envolventes
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Por Julliana Brito
Andrea Nunes é formada em Direito pela Universidade Federal da Paraíba. Ingressou no Ministério Público de Pernambuco mediante concurso público, há 30 anos. Atualmente, atua como Procurador de Justiça. Também é escritora e publicou romances policiais. Andrea também detém menção honrosa conferida pela Academia Pernambucana de Letras como melhor escritora nordestina no prêmio Dulce Chacon em 2015. Este ano, ela foi um dos destaques da programação oficial na XV Bienal Internacional de Pernambuco.
De onde vem a inspiração para escrever?
O Nordeste é uma terra repleta de mistérios e locais fascinantes. E o Brasil é tão “sui generis” que parece um romance policial pronto. Com um material tão rico, a inspiração não é algo tão difícil. Difícil é viver tempos tão desafiadores como os nossos e traduzir de modo original em literatura toda essa riqueza de conflitos, cenários e complexidades existenciais.
Ponto de partida para o seu primeiro livro?
Meu primeiro livro (de suspense, porque já havia escrito um livro jurídico), se chama “O Código Numerati”, e começou com a necessidade de explorar um dos sítios arqueológicos mais cheios de mistérios e beleza que eu descobri: o sítio arqueológico da Pedra do Ingá. Ele despertou o desejo de inseri-lo numa narrativa cheia de enigmas e conspirações.
Quais os títulos dos seus livros?
O Diamante Cor de Rosa, livro infantil, lançado em 1998. Papel Crepon, romance, 1992. Terceiro Setor, controle e fiscalização, 2004, Jurídico. O Código Numerati, romance policial, 2010. A Corte Infiltrada, romance policial, 2017. Jogo de Cena,romance policial, 2019. Corpos Hackeados, romance policial , 2021.
Está escrevendo algo?
Terminei meu último romance policial, “Presunção de Inocência”, que está em processo de edição pela Editora Flyve.
Qual livro fez você se apaixonar pela literatura?
O primeiro foi “A Chave do Tamanho”, de Monteiro Lobato. Eu esperava o dia todo que meu pai chegasse do trabalho e líamos juntos. Era a melhor parte do dia.
Como é a carreira como procuradora de Justiça?
A certeza desta missão veio porque ao me formar percebi que a Constituição Federal - à época recém promulgada - desenhava um perfil muito dinâmico para o Ministério Público, e ele teria um papel muito relevante na consecução da nova realidade que se queria para o nosso país. Eu queria fazer parte daquilo.
O que é mais desafiador no seu cargo?
Foi fascinante ter crescido profissionalmente junto com esse Novo Ministério Público desenhado pela constituição e viver todas as dores desse crescimento. Nos tornar conhecidos perante uma Sociedade que ainda não sabia que poderia recorrer a nós, mudar a mentalidade de alguns setores do Poder Judiciário para decidir mais em prol dos direitos coletivos, podar excessos e nos firmar com um pilar importante do Estado Demoxratico de Direito. Tudo isso foi desafiador para nossa Instituição, e consequentemente para nós, mas ao mesmo tempo, profundamente apaixonante..
Quais prêmios já ganhou?
Ressalto o prêmio ABERST de Literatura, atribuído a “Jogo de Cena”, como melhor narrativa longa de suspense publicada no ano de 2019, e o prêmio Bunkyo de literatura atribuído à “Corte Infiltrada”, cuja premiação tive a alegria de dividir com a querida escritora Vera Assunção. Também sou semifinalista no prêmio Loba, outro concurso literário em andamento, em duas categorias: romance inédito, com a obra “Presunção de Inocência”, e livro de poesia inédito, com a “Viagem ao Céu da Boca”.
Como foi o convite para participar do Printemps Brésilien?
A Sorbonne é uma universidade cuja história demonstra profunda ligação com a produção cultural e artística no mundo, e o professor Leonardo Tonus, coordenador do departamento de línguas lusófonas, é um grande entusiasta da literatura brasileira, já tendo levado àquela universidade muitos escritores brasileiros. Recebi o convite com muita alegria e grande responsabilidade: a de levar ao público da Sorbonne não apenas minhas produções, mas sobretudo a força da literatura nordestina e da autoria feminina na literatura policial brasileira.
Como era sua dedicação aos estudos?
Eu sempre gostei de ler, e isso ajudava muito. E o Direito era um curso que tinha muita coisa que se identificava com o modo como eu via o mundo, então não era sacrifício algum estudar, era prazeroso. Além do mais, eu só consegui entrar aos 23 anos no MPPE porque naquela época não se exigia experiência jurídica de três anos.
Como enxerga a justiça de Pernambuco?
A Justiça em Pernambuco tem apresentado ótimos resultados na área tecnológica, onde destaco a virtualização total de processos e a redução dos processos em nível de criticidade através de ferramentas de IA. Desafios de outras ordens ainda precisam ser vencidos, tais como o aumento da representatividade feminina no Tribunal de Justiça e a inclusão digital das classes menos favorecidas em locais mais remotos ser algo encarado como política de estado, para que os avanços tecnológicos implantados pelas instituições do sistema de Justiça possam ser usufruídos por toda população.
E a Justiça no Brasil?
A Justiça do Brasil tem tido a árdua tarefa de interpretar a Constituição e os princípios democráticos que sustentam o próprio Estado num cenário muito difícil: na época das redes sociais e de um mundo com guerras simultâneas, precisa ter equilíbrio e neutralidade para cumprir seu papel. Tem feito isso de modo admirável, mas diante de uma sociedade dividida e envenenada pelas narrativas dos algoritmos, precisa mais do que nunca de transparência, de ser acessível, e de saber se comunicar com a população na linguagem que chegue às massas. Estamos vivendo tempos onde é preciso reafirmar o óbvio, como a importância das instituições democráticas do Estado.
Qual o caso que mais te marcou?
Alguns casos na promotoria de justiça de Defesa do patrimônio público. Nosso trabalho contra dispensas irregulares de licitação foi importante para coibir essa prática por gestores, assim como o trabalho que realizamos contra a indústria das multas das lombadas eletrônicas.. E, ainda, as investigações acerca do repasse de subvenções sociais a entidades fantasmas que resultaram em inúmeras ações judiciais que recuperaram à época muitos milhões de reais para Pernambuco.
O trabalho influencia sua visão sobre a sociedade?
Ser servidora pública é uma missão que só faz sentido se a gente acreditar - e renovar todos os dias essa crença - no coletivo.
Já se inspirou em algum caso real para construir tramas?
A minha experiência no combate ao crime e todo esse tempo frequentando ambientes do sistema de Justiça, sem dúvida, inspira o tempo todo a construção de personagens e cenários com razoável verossimilhança com a realidade. Os casos reais podem aparecer nos livros, mas só em detalhes muito específicos, estão bastante diluídos com a ficção.
Sua experiência jurídica dá mais realismo às suas histórias?
Saber como os crimes são investigados, as técnicas atuais e os vícios do sistema no Brasil me permitem fazer ficção policial com mais facilidade. Há os detalhes, aparece um nome esquisito que vou usar num personagem, um cacoete de criminoso, os vícios secretos das secretarias de juízes e promotores, até o frio absurdo nas salas (pouco adaptadas a mulheres com blusas de seda e feitas pra homens de paletó e gravata).
Como equilibra o rigor técnico do Direito com a liberdade criativa da ficção?
Eles na verdade estão mais conectados do que se imagina: tanto as peças jurídicas quanto os livros são narrativas onde a palavra é uma arma de sedução: a gente conta uma história, leva o leitor para onde a gente quer e depois, arremata com o gran finale. O que muda é a forma de fazer.
O que mais te atrai nas tramas policiais?
Me divirto muito em enganar os leitores, e talvez seja por isso que a narrativa de suspense me prende tanto: um bom plot-twist exige o trabalho em todos esses elementos: o jogo de esconder e mostrar no modo de retratar os personagens, a malícia do narrador, a ambiguidade das falas e a sugestão subliminar que o cenário induz.
Existe algum momento do dia que você escolhe escrever?
Escrever à noite é bom por dois motivos: os barulhos do dia se aquietam, e as experiências vão decantando melhor na mente. Depois de um dia de trabalho, às vezes escrever ficção é revigorante e quando não estou escrevendo, estou lendo. É higiene mental .
O que os leitores devem levar dos seus romances?
Meus livros buscam despertar um interesse e senso crítico do leitor por temas contemporâneos universais e regionais, diluídos em narrativas de suspense. Inclusive é curioso que, quando eu trago certas reflexões de ordem política, espiritual, ética e filosófica, esse ato de desnudar-se de ideias preconcebidas sobre tais temas mexe comigo: para não ser superficial nem maniqueísta, trago ângulos que eu não tinha ainda considerado. Nesse mundo tão ansioso por respostas prontas, o essencial não é isso. Fico muito mais satisfeita quando desperto novas perguntas.
Dica para quem quer começar a escrever?
Invista em leitura. Sem isso, é impossível ganhar vocabulário, estrutura de texto e ritmo narrativo. Diversifique a leitura para desenvolver seu próprio estilo. Depois, invista em cursos de escrita criativa. Ali você aprenderá a técnica. Crie seu network com escritores e o mercado do livro.
E para a carreira como procuradora?
A carreira no Ministério Público é um Sacerdócio, mas traz muitas alegrias e realizações. Primeiro, estude muito, não desanime, nem desista se precisar recomeçar do zero. Tenha em mente que a família precisa ser compreensiva e se adequar, dar apoio desde a rotina de estudos até a eventual mudança no estilo de vida. Por último, o mais importante: seja rigorosamente ética, humana, e se apaixone pelo bem que você pode fazer na vida das pessoas.
Raio-X
- Time: Fluminense.
- Restaurante: Voar.
- Comida: Nordestina.
- Filme: “Ainda estou aqui”, de Walter Salles.
- Livro: “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco.
- Música: Nona sinfonia de Beethoven (quarto movimento).
- Cantor: Renato Russo.
- Local favorito: Minha casa.
- Hobby: Ler.