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"Talvez ele não esteja à altura do cargo", diz cientista político sobre Hugo Motta

Especialista compara presidente da Câmara a Severino Cavalcanti e aponta fragilidade política, incoerência em decisões e dificuldade de se impor

Por JC Publicado em 16/12/2025 às 15:41 | Atualizado em 16/12/2025 às 15:41

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O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), tem enfrentado críticas crescentes dentro e fora do Congresso Nacional. Em meio a episódios recentes de tensão no plenário, acusações de arbitrariedade e dificuldades de articulação política, a condução do parlamentar paraibano à frente da Casa foi avaliada pelo cientista político e professor Rodolfo Marques, em entrevista ao programa Passando a Limpo, nesta terça-feira (16).

Segundo o especialista, Motta demonstra fragilidade no exercício da função e dificuldade para lidar com a complexidade política do cargo em um dos momentos mais turbulentos da democracia brasileira. “Talvez ele não esteja à altura do cargo ou da responsabilidade que ele ora ocupa”, afirmou Rodolfo Marques.

Comparação com Severino Cavalcanti aumenta pressão

Durante a entrevista, Rodolfo Marques recorreu a uma comparação simbólica para ilustrar o momento vivido por Hugo Motta. O cientista político sugeriu uma “escala” histórica dos presidentes da Câmara dos Deputados, que vai de Severino Cavalcanti, frequentemente citado como um dos mais frágeis a ocupar o cargo, até Ulysses Guimarães, referência de liderança e autoridade institucional.

“Eu dizia que a gente podia fazer uma escala de presidente da Câmara que vai do Severino Cavalcanti até o Ulysses Guimarães. E onde é que se coloca o Hugo Motta? Ele está disputando para ver se toma o lugar do Severino Cavalcanti como referência dessa escala”, criticou.

Para Rodolfo, a comparação não é gratuita. Ele afirma que, apesar de mais jovem e atuando em um contexto tecnológico e político diferente, Hugo Motta repete práticas semelhantes às de gestões consideradas fracas no passado.“As práticas são muito similares. É um presidente fraco”, avaliou.

Pressionado por bolsonaristas e governo, Motta perde controle

De acordo com o cientista político, um dos principais fatores que explicam o enfraquecimento de Hugo Motta é a forma como ele chegou à presidência da Câmara: eleito com apoio simultâneo de partidos antagônicos, como o PL e o PT.

“Ele foi eleito com apoio de dois polos completamente opostos. Em algum momento, um puxa de um lado e o outro puxa do outro, e ele começa a ficar perdido, sem saber a quem atender”, explicou.

Segundo Rodolfo, essa tentativa de agradar a todos resultou em promessas não cumpridas, perda de credibilidade e dificuldade de impor autoridade.

“Você começa a prometer uma coisa para um que não consegue cumprir por causa do outro. Quando você não toma uma posição clara, você perde o controle — e é isso que parece estar acontecendo”, afirmou.

Decisões arbitrárias e dois pesos, duas medidas

Outro ponto destacado pelo especialista foi a condução desigual de episódios semelhantes dentro da Câmara. Rodolfo Marques citou a retirada forçada do deputado Glauber Braga do plenário e a retirada da imprensa como exemplos de decisões consideradas arbitrárias, especialmente quando comparadas a episódios anteriores envolvendo parlamentares bolsonaristas. “Falta coerência nas decisões. Há dois pesos e duas medidas”, criticou.

O cientista político lembrou que ocupações anteriores da Mesa Diretora, feitas por deputados alinhados ao bolsonarismo, não resultaram em consequências relevantes, enquanto episódios mais recentes foram tratados com truculência.

“Na ocupação da Mesa que durou mais de 24 horas, não houve grandes consequências. Depois, em um movimento similar, houve socos, pontapés e retirada da imprensa. Isso enfraquece ainda mais a presidência”, avaliou.

Falta de articulação com o Colégio de Líderes

Para Rodolfo Marques, Hugo Motta também falha ao não utilizar de forma estratégica uma das principais instâncias de negociação do Parlamento: o Colégio de Líderes. “Faltou habilidade política. Um diálogo mais detalhado com o Colégio de Líderes poderia ter evitado muitos desses conflitos”, disse.

Ele reforça que comandar a Câmara exige capacidade de negociação constante em um ambiente heterogêneo, formado por 513 deputados eleitos legitimamente. “O Parlamento representa o povo brasileiro. É preciso saber conviver com as diferenças”, pontuou.

Promessas não cumpridas e isolamento político

Rodolfo Marques também destacou que Hugo Motta não desfruta do mesmo prestígio interno de ex-presidentes da Câmara, como Arthur Lira. Segundo ele, o isolamento é consequência direta de acordos não cumpridos. “Hugo Motta não é incensado no plenário. Se Arthur Lira passar hoje pelos corredores, ele é muito mais paparicado”, comparou.

Entre os exemplos citados está a promessa de colocar em votação o projeto da anistia, defendido pela direita. “O projeto entrou em regime de urgência e nunca foi votado. Acordos desse nível que não são cumpridos enfraquecem o presidente”, afirmou.

Lula pode tentar salvar Motta, avalia especialista

Por fim, o cientista político analisou as articulações envolvendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para tentar fortalecer Hugo Motta. Uma das estratégias ventiladas nos bastidores seria permitir que Motta assuma interinamente a Presidência da República durante viagens do presidente e do vice.

“Lula é extremamente habilidoso politicamente. Ele sabe que o Hugo Motta está enfraquecido e pode tentar trazê-lo para uma perspectiva mais governista”, avaliou.

Rodolfo pondera, no entanto, que essa aproximação faz parte de um contexto eleitoral e de sobrevivência política. “Estamos às vésperas de eleições gerais. Parlamentares querem renovar mandatos ou buscar outros cargos. Essa articulação é uma tentativa de sobrevivência política”, concluiu.

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