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Olinda amplia seleção de famílias acolhedoras para crianças em vulnerabilidade

Até 31 de março, a ONG Reaviva seleciona famílias para o acolhimento temporário de crianças, priorizando o desenvolvimento cognitivo e afetivo

Por Maria Clara Trajano Publicado em 17/03/2026 às 15:44

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A rotina na casa de Lindalva Firmino mudou quando ela decidiu abrir as portas para o acolhimento familiar. O que era um cotidiano individual transformou-se em um ambiente de cuidado compartilhado, impactando não apenas a dinâmica doméstica, mas também a percepção de sua filha, Maria Clara, 14.

“Ele foi vendo que tinha muito amor e carinho e, assim, era como se fosse tudo dele. Tudo daqui era dele”, relata Lindalva, ao recordar a experiência de acolher uma criança pequena.

O relato de Lindalva exemplifica o Serviço de Acolhimento Familiar (SAF), uma política pública que busca substituir a coletividade das casas de acolhimento tradicionais pelo convívio individualizado em um lar temporário. O foco é garantir que crianças afastadas de suas famílias de origem por situações de abuso ou negligência mantenham o vínculo com a vida familiar.

O que é o acolhimento familiar

Diferente da adoção, o acolhimento familiar é uma medida de proteção excepcional e provisória. Segundo Karlise Maranhão de Lucena, psicóloga da Coordenadoria da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), a criança permanece com a família cadastrada apenas pelo período necessário para que a Justiça defina se ela retornará à família biológica ou se será encaminhada para adoção.

“O serviço acolhimento familiar é uma medida de proteção que é prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente. Essa família vai receber essa criança ou adolescente e permanecerá com ela pelo período determinado pelo sistema de justiça, com a maior brevidade possível”, define Karlise.

O papel da Justiça

A implementação do serviço enfrenta barreiras estruturais em Pernambuco. Élida Maria, assistente social do TJPE, aponta que o desconhecimento do conceito e falhas na articulação sociojurídica dificultam a transição do modelo institucional para o familiar em muitos municípios.

Apesar dos desafios, os benefícios financeiros e sociais são superiores ao acolhimento institucional. “Algumas pesquisas indicam que o acolhimento familiar tem um custo muito menor para o Estado e para a sociedade do que o acolhimento institucional”, afirma Élida.

Ela destaca que, enquanto nas instituições a alta rotatividade de cuidadores prejudica o vínculo, o acolhimento familiar oferece um atendimento individualizado às necessidades da criança.

Funcionamento do serviço na ONG Reaviva

Em Olinda, o serviço é operacionalizado pela organização não governamental Reaviva Brasil, que atua na área desde 2012. A coordenadora do serviço, Rayane Lins, explica que a seleção das famílias exige residência obrigatória no município para preservar a convivência comunitária do menor.

As famílias interessadas passam por um processo rigoroso:

  • Inscrição e documentação: entrega de antecedentes criminais e declarações de saúde.
  • Visitas técnicas: avaliações de assistentes sociais e psicólogos na residência.
  • Formação: curso de capacitação obrigatório antes do primeiro acolhimento.
  • Suporte financeiro: recebimento de bolsa-auxílio mensal de um salário mínimo para custear as despesas da criança acolhida.

“As crianças que são acolhidas dentro do serviço vem por meio da Justiça ou conselho tutelar, o juiz pode determinar o acolhimento ou a transferência de um acolhimento institucional para uma família acolhedora”, detalha Rayane.

Benefícios para o desenvolvimento infantil

A preferência pelo ambiente familiar é amparada por evidências científicas. Um estudo da Universidade de Harvard revela que cada ano passado em instituições de acolhimento pode resultar em quatro meses de déficit na cognição geral da criança.

Rayane Lins enfatiza que a rotina doméstica permite uma autonomia impossível em abrigos.

“Na instituição tem horário de comer, todo mundo come no horário igual, todo mundo toma banho no horário igual. Dentro da casa de uma família, a criança vai ter essa opção individualizada”, explica.

Gestos simples, como a liberdade de abrir a geladeira para um lanche fora de hora, são essenciais para a saúde emocional do acolhido.

O legado do afeto e a despedida

A transição da criança para uma solução definitiva é trabalhada desde o início. Na experiência de Lindalva, a despedida envolveu toda a rede de apoio, incluindo amigos da filha de 14 anos.

“Tiveram alguns colegas da escola de Maria que choraram quando a criança foi adotada porque ficaram emocionados”, conta.

As inscrições para novos voluntários em Olinda seguem abertas até o dia 31 de março de 2026, com início da formação previsto para a primeira semana de abril. Inscrições e informações no perfil @reaviva_brasil ou pelo site.

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