Manaus é alerta global
Níveis altos de poluição atmosférica na região Norte do Brasil apontam para os riscos de queimadas florestais na Amazônia – que devem crescer
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Com a qualidade do ar mais de 80 vezes pior que o padrão considerado seguro pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a população de Manaus atravessa dias de uma espécie de pandemia climática, tendo que passar períodos confinados nas suas casas, de preferência com as janelas fechadas para não sofrer tanto as consequências da fumaça na cidade. A recomendação é para que as pessoas se afastem de ambientes ao ar livre, evitem os exercícios físicos e, se saírem, utilizem máscaras para não inalarem as substâncias poluentes. A similaridade com a época mais tenebrosa da Covid ainda tem escolas fechadas, eventos públicos suspensos e emergências de hospitais com grande movimento de vítimas de doenças respiratórias, sobretudo crianças e idosos, mais vulneráveis à poluição. A situação é preocupante, e por isso o Ministério da Saúde monitora os suprimentos de oxigênio para atuar logo, em caso de necessidade.
Até o combate aos incêndios florestais é prejudicado, porque os aviões que lançam água não podem decolar dos aeroportos. O prefeito Renato Junior reclama que está pagando a conta por queimadas em outros municípios e outros estados, pois a fumaceira não vem de chamas dentro da cidade. De fato, o fogo na mata é no interior do Amazonas e em estados vizinhos, com as partículas poluentes se deslocando pela atmosfera até a zona urbana da capital. Para piorar, a falta de chuvas mantém a poluição por mais tempo no ar.
O que está acontecendo na região Norte do Brasil chama a atenção pela elevação da frequência e intensidade do fenômeno da poluição causada pelas queimadas, que extrapola o histórico observado, mesmo nessa época de estiagem. Investigações foram abertas sobre a possibilidade de crimes florestais – e pelo estrago ambiental e sanitário, eventuais criminosos identificados precisam ser punidos com exemplaridade. Mas o que torna a fumaceira em Manaus um alerta para o resto do país e o mundo inteiro, é sua relação com as mudanças climáticas – e o temor de que seja apenas o primeiro ano de uma desestabilização climática com tal dimensão.
Do ano passado para cá, a quantidade de focos de calor disparou, o que pode representar assustadora tendência. Na primeira metade de outubro, o aumento foi de 300% em comparação com 2025. A composição e a espessura da fumaça este ano também deixam a população e as autoridades mais temerosas. Cientistas concordam que a crise climática faz parte dos fatores que agravam as condições atmosféricas em Manaus e arredores. Um dos problemas que se agregam é a força do El Niño em 2026, de temperaturas mais altas e secas prolongadas a partir da elevação do calor no Oceano Pacífico. Os rios podem ficar ainda mais sem água, assim como a vegetação, que resiste com dificuldade, desidratada.
Dias mais quentes e menor umidade favorece a permanência da fumaça, ampliando transtornos e prejuízos a todos. Um pouco de chuva registrada no domingo amenizou o sofrimento da população e dos animais, penalizados pela insalubridade severa das últimas semanas. O que se passa em Manaus é indicativo de que precisamos levar mais a sério a crise climática, seja para aprender a conviver com ela, seja para impedir que fique pior.