O encontro, enfim
Empatados nas pesquisas, candidatos à presidência da República confirmaram presença no primeiro debate da campanha de 2026, neste domingo à noite
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Quando um não quer, dois não conversam. Sobretudo se o distanciamento gerar polarização favorável a ambos. Depois de uma campanha de primeiro turno com mais polêmicas do que apresentação de ideias e propostas, os dois candidatos que disputam o segundo turno abrem a última semana de campanha com a promessa de um encontro presencial, enfim, para debater o que pensam, o que apresentam, no que discordam e no que concordam a respeito da intenção de governar o Brasil pelos próximos quatro anos. O debate está marcado para a Band, com transmissão ao vivo a partir das 8 da noite, neste domingo.
Com a posição invertida em relação às pesquisas até o dia das eleições, Flávio Bolsonaro e Lula se encontram tecnicamente empatados nos mais recentes levantamentos sobre a preferência do eleitorado. E talvez apenas por isso o povo brasileiro terá chance de vê-los juntos, face a face, perguntando e respondendo um ao outro. Se algum dos dois estivesse com vantagem mais folgada, a escolha de quem vai na liderança das pesquisas, infelizmente, tem sido a de não enfrentar o contraditório, temendo o risco de perder votos.
Com perguntas sobre os programas de governo e tempo separado para o diálogo direto entre os candidatos, o debate terá quase duas horas de duração. A apenas uma semana do dia da votação, trata-se de importante momento do processo eleitoral, tanto para os candidatos quanto para a população que irá mostrar, voto a voto, a escolha da maioria. As expectativas são enormes, uma vez que o encontro entre Lula, o atual presidente, e Flávio, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, é inédito na campanha, até agora. Mais que discursos ensaiados na ponta da língua, eleitoras e eleitores querem ver as reações de ambos ao que for indagado e discutido. O estresse de final de campanha pode ser um componente decisivo para o desempenho no debate. Mas é difícil cravar previsões ligadas às performances neste domingo. As repercussões do desempenho individual em relação ao resultado das urnas são incertas, num cenário de embate tão acirrado.
O que vale a pena é trazer um pouco de racionalidade e sensatez, e mesmo de imprevisibilidade e dúvida, a uma campanha dominada pelo incentivo ao ódio, de um lado, e ao medo, de outro, com base no compartilhamento de convicções inabaláveis sobre o lado oposto. No contexto da combalida política brasileira, de baixa renovação de lideranças e esvaziamento do centro – do verdadeiro centro, com agremiações partidárias coerentes e bem definidas programaticamente – o debate pode ser capaz de desanuviar a atmosfera de tensão gerada pela retórica agressiva espalhada pelas equipes de comunicação e pelos próprios candidatos.
Seria o ideal, valorizando a democracia e colocando na cabeça do eleitorado melhores fundamentos para as certezas firmadas no solo frágil da emoção. Se nem um nem outro são os candidatos dos sonhos da maioria da nação, as instituições democráticas chegam a este ponto de reflexão antes do voto precisando de reafirmação de valores elementares, como a pluralidade de ideias e a diversidade de pensamento e visões de mundo.
O Brasil aguarda um bom debate, travado com educação e honestidade, para que possamos discernir o caminho adiante.