Editorial | Notícia

Debate além da jornada

Votação da escala 6 x 1 no Congresso ganha prioridade do governo federal, mas está longe de ser a única pauta para o mercado de trabalho no país

Por JC Publicado em 11/10/2026 às 0:00

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A economia é complexa, com problemas compostos por diferentes fatores. Soluções simplistas não costumam bastar para alterar a realidade econômica. Na coluna JC Negócios da última sexta, Fernando Castilho apontou que “o Brasil chegou ao maior número de pessoas ocupadas desde o início da série histórica, em 2012, mas o avanço do emprego não tornou a contratação mais simples para as empresas”. A dificuldade para encontrar profissionais saltou de 34% para 80% nesses 14 anos, segundo o colunista. Com desemprego baixo, a disponibilidade de candidatos é menor, mantendo “a distância entre os perfis procurados pelas empresas e as competências encontradas entre os candidatos”.
A falta de preparação adequada é um gargalo que impede o crescimento na economia, por exemplo, no setor de serviços técnicos e científicos, onde 85% das empresas relatam dificuldades para preencher as vagas. E não se trata de preparação tradicional. “O perfil do novo colaborador inclui alguém que possa entender o negócio, adaptar-se rapidamente e produzir resultados”, diz Castilho, pintando uma realidade perturbadora. A questão não é mais apenas a escolaridade, mas também a formação que precisa cada vez mais ser feita além da escolaridade.
Em tal contexto, o fim da escala 6x1, de seis dias de trabalho para um de descanso, configura pauta importante e justa, mas não esgota o debate que deve ser realizado para além da jornada. Um dos principais tópicos, aliás quase nunca tratado com a importância devida, vem a ser o valor do salário-mínimo, cuja defasagem em relação às necessidades básicas do cidadão e da cidadã é inegável. Aprofundar o debate a respeito, e promover uma mobilização nacional pelo aumento do salário-mínimo, seria avanço com benefícios coletivos imediatos para a população. Ao lado disso, a retirada de custos desnecessários, a redução dos juros e outras medidas podem viabilizar esse aumento, e repercutir em toda a economia positivamente, alargando o poder aquisitivo e o ambiente de negócios proporcionado pelo consumo.
A questão da jornada poderia ser melhor abordada e resolvida em conjunto com outras necessidades do mercado de trabalho no país. E não, empurrada a toque de caixa em momento eleitoral. O salário insatisfatório é, portanto, algo que não se pode deixar para trás, inclusive, no ano que vem, a partir do início de mandato de qualquer dos dois postulantes à presidência da República que disputam a escolha do eleitorado daqui a duas semanas.
Pela Constituição de 1988, o salário-mínimo é um direito elementar dos brasileiros. Mas o valor muito abaixo do ideal para garantir a vida digna do indivíduo compõe desafio inadiável para a próxima gestão federal, no contexto de um cenário problemático de contas públicas desajustadas. Tanto para um governo que continue as políticas públicas em andamento, prometendo novas conquistas, quanto para um que se apresente como promotor de mudanças, o incremento salarial é uma discussão capaz de ir muito além da distribuição da jornada – embora, repita-se, a jornada faça parte do cotidiano de trabalho e produtividade que demanda transformações efetivas para o desenvolvimento brasileiro.

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