Editorial | Notícia

Alerta de inflação assusta

Descontrole da meta inflacionária de outubro lança mais uma preocupação para o próximo governo, seja quem for que estiver no Palácio do Planalto

Por JC Publicado em 10/10/2026 às 0:00

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Nas décadas de 1980 e 1990, antes do Plano Real em 1994, o Brasil passou por um difícil período de alta constante de preços, que corroía os salários e achatava o poder aquisitivo e a qualidade de vida, num ritmo avassalador e estressante: o dinheiro perdia valor rapidamente, comprando menos do que podia comprar uma semana antes. A inflação parecia indomável, vencendo vários planos de contenção, transformando-se em hiperinflação e gerando um caos na economia. Somente com a engenhosa solução do Real, a febre inflacionária baixou, e o país voltou a ter noção do valor da estabilidade monetária como premissa do desenvolvimento.
Em uma realidade espremida pela bagunça fiscal e pela instabilidade política no horizonte próximo, a notícia de mais um elemento de perturbação inquieta o mercado – e arrepia a pele da nação. A inflação de setembro disparou e ficou fora da meta, chegando a 0,82%, maior índice em cinco anos, desde 2021. O valor significa quase o dobro do registrado pelo IPCA em setembro do ano passado. O IPCA é o índice oficial de inflação no Brasil, sendo calculado a partir de pesquisas de preços de quase 400 produtos e serviços nas regiões metropolitanas e algumas cidades.
No acumulado de 12 meses, a inflação passa de 4,5% e estoura a tolerância de 1,5% para uma meta de 3% de alta inflacionária, fixada pelo Conselho Monetário Nacional. Trata-se de um sinal preocupante, que deve servir de alerta para os dois candidatos que disputam o segundo turno da eleição presidencial. Seja quem for eleito, Flávio Bolsonaro ou Lula terá que enfrentar o problema da inflação, ao lado da dívida pública, do ajuste fiscal e do risco de baixo investimento público e privado.
Se a estimativa do Banco Central estiver correta, o teto da meta será atravessado em dezembro, com inflação anual acima de 5%. Em setembro, o descontrole se deveu às contas de luz, que subiram quase 8% no mês. Mas os preços dos combustíveis e dos alimentos, assim como os custos de habitação, também apresentaram altas, colaborando para a subida inflacionária. As elevações de preços não podem ser normalizadas, sob o risco da remarcação por prevenção, como era o costume no passado não tão distante, embora nas últimas décadas do século passado. Se o trauma está nas gerações que testemunharam a espiral inflacionária, não se pode descartar um comportamento disparado pela cultura da inflação que ainda se manifeste entre os brasileiros.
A indexação automática da economia em vinculação com a inflação produziu muitos danos ao país, mas é difícil engolir a alta de preços sem reposição de custos para o consumidor. A gestão das expectativas em um ambiente de estabilidade é a tarefa que cabe ao Banco Central, mas não somente: os governos precisam fazer sua parte para evitar o descontrole monetário que interfira em toda a economia. Apesar das críticas, a taxa básica de juros, Selic, segue sendo instrumento essencial para reter a inflação. Projeções de analistas do mercado e do próprio governo apontam que os próximos anos serão de dificuldades para a gestão pública, por causa do desequilíbrio fiscal. Se a inflação chegar junto, o problema será muito maior.

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