Campanha em nível baixo
Busca de agendas negativas amplia a crise institucional, nivela por baixo os Três Poderes e deixa o problema nas mãos do eleitorado
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Mesmo que os apelos de campanhas eleitorais em outras partes do mundo configurem uma tendência de troca das propostas por agressões aos adversários, refletindo talvez, mais do que causando, fissuras nos sistemas democráticos, o Brasil de 2026 é um exemplo da apelação como atalho para o poder. Em especial a corrida presidencial, mas também nas disputas estaduais, o que se vê são escolhas guiadas ao “espírito do tempo virtual” com a finalidade de produzir engajamento nas redes sociais e subir pontos nem que seja dentro da margem de erro na próxima pesquisa de intenção de voto.
Com a participação melancólica de integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), comprometendo o topo do Judiciário – e assim, minando a confiança na Justiça por inteiro – as candidaturas ao Palácio do Planalto deixaram de lado as mensagens propositivas. O que sugerir mais apelo, isto é, potencial de destruição da popularidade alheia, é disseminado com voraz ímpeto. E pouco importa a veracidade ou o cabimento da apelação diante de seu poder de fogo. Estrategistas de campanha estão virando estrategistas de guerra, como se o objetivo fosse conquistar um território imaginário derramando sangue simbólico de outro candidato ou candidata, e não, convencer as pessoas da qualidade das condições para o exercício do cargo que se postula.
A troca de pedradas é tão evidente que, a poucos dias da votação, cresce nas campanhas que seguem na dianteira um misto de conclamação ao voto útil e de súplica para que os cidadãos e cidadãs façam de conta que não estão vendo nada, e se dirijam às seções eleitorais no domingo para exercer o dever cívico pela nação. E o pior: não para votar em alguém, por um projeto de futuro – mas contra o adversário, por um projeto, digamos, de negação do futuro alternativo que “o outro lado” significaria.
No caso governista, reprisa-se a retórica da eleição passada, em defesa da ordem democrática, aglutinando, àquela altura, o que restava do centro – não Centrão, centro mesmo – na política nacional. Enquanto na oposição, a fadiga do material petista no poder é explorada à exaustão, exibindo o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro como imagem pintada de redentora renovação. Nada por acaso, a revista britânica The Economist resumiu em editorial a encruzilhada eleitoral que se projeta entre Lula e Flávio: com essa escolha desoladora, o Brasil “dá as costas para o futuro”.
O nível rasteiro da campanha de parte a parte no primeiro turno contribui para a impressão que vem de fora, mas também expressa o distanciamento de parcela do um terço da população que não se cola nem de um lado, nem do outro. Temendo a abstenção que pode complicar qualquer um dos dois, o alerta na reta final é para levar eleitores às urnas. Seja qual for o desfecho, o cenário está montado para prolongar ou agravar a crise institucional que já toma conta do STF. Depois que o eleitorado fizer a sua parte e decidir, no primeiro ou no segundo turno, serão os atores institucionais que terão que cuidar de proteger a democracia que atacam, agora, com feroz irresponsabilidade.