Editorial | Notícia

Será difícil para qualquer um

Revisão oficial da dívida pública estimada para os próximos anos descortina horizonte de dificuldades ao futuro ocupante do Palácio do Planalto

Por JC Publicado em 21/09/2026 às 0:00

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Enquanto as campanhas das candidaturas que despontam nas pesquisas como preferidas do eleitorado para o Planalto opõem rivais em polos retóricos mantidos distantes, uma preocupação recorrente ao olhar crítico dos dois lados aparece na perspectiva da gestão das contas públicas nos próximos quatro anos. Nem o governo de Lula, que postula o quarto mandato, nem o de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, foram entusiastas de medidas necessárias à manutenção do equilíbrio fiscal. E o legado de ambos, no período de oito anos que se encerra em dezembro e antecede o mandato que se inicia em janeiro, será um peso para qualquer um que se sagre vitorioso nas urnas daqui a pouco, em outubro.
As projeções da equipe do atual governo são inquietantes. A dívida pública deve se aproximar de 90% do Produto Interno Bruto (PIB) no último ano de gestão do presidente da República a seguir, em 2029. Informações complementares ao orçamento do ano que vem, remetidas ao Congresso pelo governo Lula, traçam um cenário de alerta que reflete o desleixo praticado nos últimos anos, em relação às contas públicas fora de controle, em despesas incontidas e receitas insuficientes para tapar o rombo acumulado. A dívida bruta do governo deve fechar 2026 acima de 86% do PIB, 12% a mais do que era quatro anos atrás, e daqui a quatro anos, se nada for feito em contrário, o comprometimento pode roçar os 90% do PIB.
Os juros altos agravam uma situação que não é boa há muitos anos. Mas não vem dos juros a explicação para o desequilíbrio financeiro do Estado brasileiro. Sobretudo nos últimos dois mandatos, a adoção de medidas populistas sem rigor fiscal contribuiu para a elevação da dívida – ainda que, no período Bolsonaro, a pandemia de Covid tenha constituído importante fator de instabilidade, exigindo gastos de reparação e compensação pela inatividade estabelecida. O aumento do Auxílio Brasil no final da gestão bolsonarista, e do Bolsa Família agora, por Lula, ilustram descompromissos similares com as metas fiscais. O problema, nos dois momentos, não é o mérito dos aumentos, mas sua proposição sem previsão orçamentária, em plenas campanhas eleitorais.
O cenário adiante é de dificuldades para qualquer um no Planalto, seja um dos dois nomes que lideram as pesquisas, seja outro que surpreenda na reta final. Se a meta fiscal for cumprida de forma protocolar, em margens frouxas, a tendência é que as contas piorem, tornando o governo inviável, expondo a população à insustentabilidade financeira de uma conta coletiva contraída ao longo dos anos pela irresponsabilidade com o dinheiro público. Tudo indica que será um período de investimentos minguados, problemas para o pagamento de salários dos servidores, e ampliação do sufoco em ocasiões emergenciais, como as consequências da crise climática em curso.
Vale frisar que uma enorme dívida pública não configura mero detalhe para a eficiência da gestão pública, ou seja, o atendimento das demandas da população. Governos endividados desestimulam a economia como um todo, freando o potencial de desenvolvimento e impedindo o surgimento de um ciclo de crescimento necessário a um país que já foi o país do futuro, e hoje é retardatário.

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