Censura cresce nos EUA
Medida do presidente Donald Trump que proíbe a CNN e outros veículos de entrarem na Casa Branca é sinal de retrocesso na liberdade de expressão
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A atividade jornalística se caracteriza pela apuração e divulgação dos fatos, dando voz ao seu testemunho e oferecendo perspectivas para diferentes visões de seu significado. Não por acaso, a diversidade e a pluralidade presentes no trabalho da imprensa figuram entre os primeiros direitos restritos ou banidos em regimes totalitários, ou naquelas democracias nas quais o chefe de Estado ou de governo age como se não existissem instituições fiadoras da liberdade, a exemplo de uma Constituição que garanta a expressão livre que está na essência do jornalismo.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, costuma chamar o trabalho da imprensa de “fake news", enquanto distribui memes e informações desprovidas de fonte confiável em sua rede social, a que denomina de “verdade”. Repetindo o comportamento padrão, o presidente Trump afirmou, na sua rede social, que está banindo três veículos de comunicação de terem acesso à Casa Branca, sede do Executivo federal nos EUA. Repórteres, cinegrafistas, produtores e outros profissionais da CNN, da MS NOW (ex-MSNBC) e do site Político ficam proibidos de realizar a cobertura das pautas no centro do poder em Washington. Sem apontar qualquer motivação específica, Trump disse apenas que tais veículos disseminam notícias falsas – e que portanto não deveriam mais contar com a entrada liberada na Casa Branca.
Obviamente não é a primeira vez que o magnata e líder do Partido Republicano tenta calar a imprensa em seu país. Quando a Associated Press (AP), uma das agências de notícias mais tradicionais do mundo, recursou-se a fazer referência ao Golfo do México como Golfo da América, em rebatismo de Trump, o presidente baniu a AP de entrar no Salão Oval da Casa Branca. Em 2018, um repórter da CNN precisou recorrer à Justiça para ter de volta a credencial de trabalho que havia sido suspensa pela presidência, para exercício no mesmo local.
A confiança no sistema judiciário põe em xeque a nova medida, caso venha a ser confirmada pelo governo Trump - não será surpresa se a afirmação na rede social for apenas mais uma declaração para gerar polêmica. A Primeira Emenda da Constituição norte-americana não poderia ser tão explicitamente violada, com a proibição do acesso aos jornalistas. Em resposta à declaração do presidente, a CNN divulgou nota afirmando que “a reportagem sem interferência do governo é um direito constitucional”, e que “se o veto de Trump for adiante, será uma agressão ilegal a esse direito fundamental protegido pela lei”.
A vontade autoritária de um presidente que faz quase tudo o que quer, precisa ser rechaçada no mundo inteiro, para não ser repetida em países democráticos alinhados a Trump e seu modo excludente e violento de governar, ameaçando a democracia e manipulando a informação num jogo de desinformação que inclui privilégios e influenciadores digitais e veículos alinhados. Banir órgãos tradicionais de imprensa de seu trabalho é desejar controlar a divulgação e a interpretação dos fatos, limitando a visão do público ao domínio do Estado. Assim, os EUA não diferem, nessa área, de ditaduras que sempre foram criticadas exatamente pelo ambiente fechado à liberdade de expressão.