Sem confiança no STF
Datafolha mostra que quase a metade dos entrevistados não confiam no Supremo, em resultado recorde que supera desconfiança em outras instituições
Clique aqui e escute a matéria
Das diversas análises que vêm sendo feitas a respeito do ineditismo da crise que perturba as entranhas da cúpula do poder Judiciário no Brasil, é precisamente o fato de vir das entranhas que dimensiona a sua gravidade. Situações suspeitas criadas por seus próprios componentes e suas relações mal explicadas ou silenciadas com alguém que parece despontar como o mais bem-sucedido golpista na história nacional recente, o banqueiro Daniel Vorcaro, são situações tão fora de propósito para integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), que os excelentíssimos juízes não dão conta de se manter na sombra, aparecendo no foco da atenção da opinião pública em poses de guerra contra os fatos e contra seus pares. A Constituição virou contraditório escudo para os guardiães, e os consensos e decisões colegiadas se transformaram em trocas mútuas de acusações e numa indecisão lançada longe – para, quem sabe, um futuro próximo no qual os brasileiros esqueçam das incômodas ligações dos ministros do STF.
No trajeto até a degradação em que uma sessão do Supremo se assemelha a uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Congresso, com mais bate-boca do que discussão das dúvidas levantadas, também virou lugar-comum a metamorfose da corte máxima do Judiciário em arena política. A polarização observada atualmente não foi forjada por Vorcaro, e sim, construída tijolo a tijolo por indicações partidarizadas para a composição do Supremo, por nomes da confiança dos presidentes da República da vez, desvirtuando o distanciamento ideal entre os poderes.
Tal confiança pessoal unindo presidentes e ministros do STF é uma das fontes para a desconfiança crescente da população em relação à Suprema Corte brasileira, que culmina em resultados desastrosos inéditos acerca do olhar da população. De acordo com o Datafolha, 48% dos entrevistados não confiam no Supremo, pela primeira vez em preferência maior que em relação à presidência da República (42%), Congresso e partidos (45% cada). Apenas 14% afirmam confiar muito no STF. A politização se exprime num recorte: para os que avaliam o governo Lula como ruim ou péssimo, a desconfiança com o STF chega a 75%, ou nada menos que três quartos dos entrevistados.
Como em todo levantamento do tipo, os dados revelam uma espécie de fotografia do instante – em um momento péssimo, jamais assim tão percebido para o STF e o Judiciário no país. Em consonância com a noção genérica do nível elevadíssimo – e vexatório – de corrupção na Justiça, expresso pelos próprios integrantes do Supremo, caberia menos soberba, menos jogo de cena, e mais compromisso com a responsabilidade de cada um e de todos os ministros ali designados para servir ao povo brasileiro. Antes de uma reforma no Judiciário, é preciso que os juízes do STF assumam a tarefa de uma faxina ética em suas dependências, reconhecendo erros e excessos, e sobretudo, não eximindo de culpa, de partida, um ou mais membros envolvidos em suspeitas que mancham a credibilidade da instituição, comprometendo um dos alicerces da democracia.