Editorial JC: Transporte sem ônibus
Nos últimos anos, apesar do aumento da demanda, o transporte coletivo por ônibus perdeu milhões de passageiros no Brasil, segundo associação
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O encolhimento do transporte coletivo através de ônibus nas grandes cidades e regiões metropolitanas no Brasil é um fato. Se por um lado a tendência reflete a busca dos usuários por aplicativos de carros e motos, que representam alternativa mais rápida e segura, por outro lado, essa busca resulta, em larga medida, da falta de priorização de políticas públicas favoráveis aos coletivos, abrindo oportunidades de mercado para os aplicativos, que se aproveitam do desmonte ou do abandono dos serviços de ônibus – e da estrutura necessária para privilegiar o sistema rodoviário coletivo, como as faixas exclusivas para esse modal.
A estagnação que revela o atendimento a uma quantidade menor que o nível de antes da pandemia, seis anos atrás, está na análise dos números da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU). De acordo com o Anuário 2025-2026 da entidade, o total de viagens realizadas no ano passado foi 3,7% menor do que em 2024, sendo 77,5% das viagens registradas em 2019. E em quatro anos, de 2021 a 2025, o número de passageiros pagantes despencou de 72% para 55% do total. Ou seja, quem paga, prefere cada vez mais os aplicativos, assumindo os riscos da escolha, sobretudo no caso das motos, responsáveis pela maioria das internações e muitas mortes decorrentes de sinistros de trânsito no país, nos últimos anos.
A mobilidade dos cidadãos brasileiros anda em círculos, e o transporte coletivo vai ficando para trás, em especial nas regiões metropolitanas desprovidas de sistemas de metrô de qualidade – como o Recife, onde o sucateamento de décadas faz da opção metroviária uma humilhação para a população, que recorre ao serviço mais por falta de alternativa do que por preferência. A redução verificada em território nacional, pela NTU, é um reflexo do problema que se arrasta e se torna mais difícil de ser enfrentado. “O resultado é um círculo vicioso que agrava o congestionamento, aumenta a poluição do ar e reduz a qualidade de vida nas cidades — um problema que o Anuário atribui, em primeiro lugar, à falta de prioridade política e de gestão para o transporte coletivo”, comenta a colunista de Mobilidade do JC, Roberta Soares.
A diferença que gera congestionamento pode ser ilustrada pela capacidade de transporte: enquanto um ônibus leva 700 passageiros por dia, automóveis levam em média 1,5 pessoa por viagem, e a moto, apenas uma por trajeto – quase sempre feito às pressas e de maneira perigosa, para driblar os engarrafamentos crescentes gerados pela diminuição dos coletivos. Os olhos fechados do poder público à questão vêm de antes da pandemia, tendo a omissão se agravado de seis anos para cá. Sem cuidar do transporte coletivo e permitindo o avanço dos aplicativos, os governos federal, estaduais e municipais contribuem para a piora na mobilidade. “Cada moto ou carro novo que entra em circulação disputa o mesmo espaço viário limitado das cidades, o que penaliza diretamente quem depende do transporte coletivo para ir ao trabalho, à escola ou ao posto de saúde”, resume o documento da NTU.