Previsão de crise climática
Ambientalistas sobem o tom de alerta para os próximos meses, quando o aquecimento do Pacífico deve intensificar ainda mais os rigores do clima
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Depois de avisos repetidos por décadas, cientistas que acompanham as mudanças no clima da Terra parecem ter abandonado qualquer cerimônia, assumindo o que, a olhares desatentos, poderia passar a impressão de sensacionalismo. Se não fossem os efeitos acumulados experimentados nos últimos anos, em diversas partes do mundo, a preocupação, externada por muitos, a respeito do El Niño deste ano, poderia soar como exagero sensacionalista. Para elevar a atenção global, a onda de calor fora de época na Europa, em maio, serviu como argumento adicional para os que preveem para os próximos meses, com base nos dados, consequências marcantes do aumento da temperatura do Oceano Pacífico, no evento climático cíclico que se tornou conhecido como El Niño.
Para se ter uma ideia do alcance dos efeitos do fenômeno, vale mencionar que a observação dos impactos relacionados à sua influência abrange chuvas torrenciais, estiagens severas e ondas de calor na América do Sul, e aumento das temperaturas globais. No Brasil, o que acontece com a participação do El Niño reúne secas na Amazônia e no Nordeste, calor intenso no Centro-Oeste e tempestades na região Sul. Isso em se tratando de edições tradicionais do evento climático – sua intensificação prevista pelos meteorologistas pode trazer surpresas, além da força da natureza traduzida pelo clima. Mesmo que tais ocorrências não dependam exclusivamente dele, o El Niño favorece as condições para sua realização, segundo os estudos.
A expectativa de um “super El Niño” mexe com a imaginação das populações, e no Brasil não é diferente. O temor pode se espalhar com o agravamento do clima, segundo as estimativas, no segundo semestre. Do ponto de vista da gestão pública, o que pode ser feito é levar a sério as informações compartilhadas pela ciência, com o objetivo de serem tomadas as precauções devidas para a segurança dos cidadãos. A falta de investimentos estruturais de prevenção aos desastres, sobretudo em áreas de risco, faz do Brasil um país de grandes vulnerabilidades aos fenômenos naturais extremos.
Por outro lado, se não se pode eximir a responsabilidade dos que lucram – e muito – com um modelo civilizatório baseado na exaustão dos recursos naturais e no sufocamento da biosfera por gases que esquentam o planeta e bagunçam com os fatores que equilibram as formas de vida, não esqueçamos que fazemos parte desse modelo, ativamente. Cada indivíduo, assim como cada comunidade, cidade, região ou nação, detém razões e capacidades para fazer mais pela sustentabilidade, e por um modo de vida menos predatório. O aquecimento global não está se dando em Marte. É aqui, na nossa única e coletiva casa, que o risco à vida nos afeta. Ainda que as mudanças climáticas impliquem transformações no habitat humano apenas daqui há séculos, a exemplo da suposta elevação dos níveis dos oceanos que inundaria cidades litorâneas como o Recife, precisamos enxergar nas ameaças imediatas – do tipo do El Niño – sinais de mobilização pela preservação das atuais combinações naturais que nos proporcionam abrigo neste pequeno e precioso planeta.