Editorial JC: Famílias endividadas
Quase um terço da renda familiar dos brasileiros está comprometido com o pagamento de dívidas, maior nível de endividamento em vinte anos
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Um dos termômetros da saúde econômica em qualquer país é o nível de endividamento das famílias, que precisa ser analisado em paralelo à capacidade do pagamento das dívidas contraídas. Em nações onde a desigualdade é gritante, e o desenvolvimento equilibrado da população ainda não se concretizou, é preciso cuidar para que a parcela mais pobre e a classe média mais próxima da pobreza não comprometam a renda com dívidas que podem se transformar em bolas de neve difíceis de se quitar.
No Brasil, embora a renda das classes menos favorecidas vem aumentando, sobretudo em virtude de programas sociais de assistência como o Bolsa Família, o endividamento dos mais pobres vem subindo – o que é um mau sinal para a economia.
Mesmo com a conjuntura em relativa boa situação – baixo desemprego e inflação sob controle, ao custo, ainda, dos juros altos – as famílias têm atrelado à despesa mensal 29% da renda para pagar dívidas ou juros de dívidas, o que é um patamar considerado elevado. De acordo com informações do Banco Central, trata-se do maior nível de endividamento das últimas duas décadas, ou seja, significa o aprofundamento de condição indesejada para os agentes econômicos, com potencial para estagnar e até reverter o crescimento nacional.
O quadro contribui para o aumento da inadimplência, pressionando negativamente a economia e, claro, deteriorando a qualidade de vida dos endividados. No rotativo do cartão de crédito, no cartão parcelado, no cheque especial e no crédito livre, os brasileiros estão pegando mais dinheiro emprestado – sem necessariamente terem garantias de que vão poder saldar as dívidas.
Seguindo a Federação Brasileira de Bancos, os dados do Banco Central indicam uma inadimplência maior na faixa de renda de até salários mínimos. Nessa faixa, a dívida contraída – às vezes para rolar outras dívidas – não demora a pressionar ainda mais a qualidade de vida para baixo, já que dificilmente há reservas financeiras para cobrir o buraco. E muitas vezes, a dívida lança para os mais jovens membros da família, em geral estudantes, a necessidade de buscar trabalho para colaborar com as despesas de casa.
A definição de um cenário com essas características faz com que a aprovação de crédito pelo comércio sofra restrições, por causa do risco de inadimplência. E assim, a economia pode se retrair, ou crescer menos do que o esperado. Num efeito de percepção da conjuntura, por extensão, a falta de dinheiro para a base da sociedade pode se refletir num lado ou noutro da gangorra eleitoral em ano de pleito presidencial, e renovação do Congresso.
Candidatos atrelados ao governo federal podem receber do eleitorado a carga de responsabilidade sobre as dificuldades cotidianas, e a regra, nesses casos, é o voto pela mudança – seja para qual for o candidato da preferência da maioria.
Com repercussões políticas e econômicas que também devem ser afetadas pelo panorama internacional, em especial com os desdobramentos da guerra no Oriente Médio, o endividamento das famílias entra na pauta das campanhas, e na agenda de um governo acuado pelo medo da crise.