Priscila Lapa e Sandro Prado: A política ainda é masculina? Um olhar sobre a democracia brasileira
A presença de mulheres nos cargos mais altos do Executivo estadual amplia a legitimidade social da participação feminina na política...
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No calendário cívico e político, algumas agendas ultrapassam datas específicas e se consolidam como temas permanentes das democracias contemporâneas. A participação das mulheres na política é uma dessas questões estruturais, ancorada em processos históricos de mobilização por direitos, inclusão e igualdade. No Brasil, essa discussão ganha relevância ao se observar a configuração das instituições representativas. A democracia brasileira convive com um paradoxo estrutural: as mulheres constituem maioria na sociedade e no eleitorado, mas permanecem minoria nos espaços formais de poder.
Segundo dados da Justiça Eleitoral, as mulheres representam mais de 52% do eleitorado brasileiro. Em termos demográficos e políticos, constituem a principal força eleitoral do país. Ainda assim, esse peso numérico não se traduz proporcionalmente na ocupação de cargos eletivos. Trata-se de um clássico problema de sub-representação política, fenômeno que ocorre quando determinados grupos sociais não conseguem converter sua presença na sociedade em presença equivalente nas instituições decisórias.
A origem dessa assimetria possui raízes históricas profundas. O direito ao voto feminino no Brasil foi reconhecido apenas em 1932, durante o governo de Getúlio Vargas, como resultado de décadas de mobilização de movimentos feministas, associações civis e intelectuais que defendiam a ampliação da cidadania política.
Dois anos depois, em 1934, esse direito foi incorporado à Constituição, formalizando a inclusão das mulheres no sistema eleitoral brasileiro.
No caso de Pernambuco, a presença feminina nos cargos eletivos federais começou a ganhar maior visibilidade apenas no processo de redemocratização do país. A primeira mulher eleita deputada federal pelo estado foi Cristina Tavares, em 1982. Jornalista e natural de Garanhuns, destacou-se como uma importante liderança política no período de transição democrática, atuando na defesa das liberdades civis e na reorganização das instituições políticas após o regime militar.
A presença feminina no Senado Federal demorou ainda mais para se consolidar. Somente quarenta anos depois, nas eleições de 2022, Pernambuco elegeu sua primeira senadora. Teresa Leitão, professora e militante histórica da educação pública, tornou-se a primeira mulher escolhida pelo eleitorado pernambucano para representar o estado na Câmara Alta do Congresso Nacional.
No âmbito do Poder Executivo estadual, a mudança institucional também é recente. A primeira mulher eleita governadora de Pernambuco foi Raquel Lyra, nas eleições de 2022. Na mesma disputa, Priscila Krause foi eleita vice-governadora, tornando-se a primeira mulher a ocupar esse cargo por meio do voto popular no estado. Essa configuração política, com duas mulheres nos cargos mais altos do Executivo estadual, representa um marco simbólico relevante na história política pernambucana.
Apesar desses avanços, os indicadores nacionais ainda revelam uma presença feminina limitada nas instituições políticas. Nas eleições de 2022, por exemplo, foram eleitas 91 mulheres para a Câmara dos Deputados, o que corresponde a cerca de 18% das cadeiras, enquanto os homens permanecem com aproximadamente 82%. No Senado Federal, a situação é semelhante, com a presença feminina girando em torno de um quinto das cadeiras disponíveis.
Esse padrão nacional de sub-representação também se reproduz em escala subnacional, indicando que não se trata de um fenômeno episódico, mas de uma limitação estrutural do sistema político brasileiro. Ao se observar o caso de Pernambuco, os avanços mostram-se ainda mais restritos, especialmente no âmbito do Poder Legislativo federal. Nas eleições de 2022, das 25 cadeiras a que o estado tem direito na Câmara dos Deputados, apenas três foram ocupadas por mulheres, Clarissa Tércio, Maria Arraes e Iza Arruda, o que corresponde a apenas 12% da representação pernambucana na Casa.
Diversos fatores ajudam a explicar essa disparidade. Parte das barreiras está associada ao funcionamento interno dos partidos políticos, que frequentemente reproduzem estruturas hierárquicas e redes de poder predominantemente masculinas. Somam-se a isso as dificuldades de financiamento eleitoral, a distribuição desigual de recursos de campanha e o acesso limitado às posições de maior visibilidade nas chapas partidárias.
No contexto regional, Pernambuco vive atualmente um momento político que carrega forte significado simbólico nesse debate. A presença de mulheres nos cargos mais altos do Executivo estadual amplia a legitimidade social da participação feminina na política e tende a estimular novas candidaturas e trajetórias políticas.
Esse fenômeno foi discutido pelos professores Priscila Lapa e Sandro Prado em um capítulo do livro Voto e Política no Nordeste, publicado em 2025 pela Editora da Universidade Estadual da Paraíba. Os autores destacam o protagonismo crescente das mulheres nas eleições recentes e apontam Pernambuco como um dos contextos regionais em que os processos de ampliação da representatividade política têm avançado de forma mais visível.
É nesse cenário que as eleições de 2026 passam a ser observadas como um momento potencialmente decisivo para a ampliação da presença feminina na política brasileira. A tendência de crescimento das candidaturas de mulheres, associada a uma fiscalização mais rigorosa das regras eleitorais e a uma pressão social crescente por igualdade de gênero, pode produzir mudanças graduais no padrão de representação política do país.
Talvez a democracia brasileira esteja apenas começando a se olhar no espelho. Durante décadas, organizou-se como um sistema em que a maioria votava, mas uma minoria governava. As mulheres sempre estiveram presentes nas filas das urnas, nas escolas, nos movimentos sociais, nos bairros e nas famílias que sustentam a vida cotidiana do país. Faltava apenas que essa presença se transformasse também em poder institucional.
Quando isso começa a acontecer, mesmo que lentamente, algo mais profundo se move na engrenagem da política. Não se trata apenas de ocupar cargos, mas de ampliar o próprio significado da representação democrática. Se a democracia é, em essência, o governo do povo, talvez o Brasil esteja finalmente começando a aprender que esse povo tem, em sua maioria, rosto de mulher.
Priscila Lapa, jornalista e doutora em Ciência Política; Sandro Prado, economista e professor da FCAP-UPE.