Editorial JC: Tensão no Oriente Médio
Ataques coordenados por Netanyahu e Trump para derrubar o regime no Irã desafiam as leis internacionais, e geram incertezas na região e no mundo
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A aliança dos Estados Unidos com Israel, a partir do que parece total convergência de interesses entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu, ganha materialidade na provocação de uma guerra de alto teor explosivo no Oriente Médio. Os bombardeios sobre o Irã miram a desestabilização e a derrubada do regime para submissão de novos ocupantes do poder ao comando de israelenses e norte-americanos. Mas mesmo que toda a cúpula do governo iraniano seja assassinada, especialistas apontam que o regime tem características mais consistentes, e mais difíceis de enfrentar, do que a vulnerabilidade mostrada pela Venezuela, por exemplo.
A aposta de Trump, em especial, pode ser de alto risco político, uma vez que a ofensiva ao Irã não apresenta, nos EUA, a mesma adesão popular que demonstra em Israel. Se a instabilidade atiçada no mundo inteiro através do descontrole da indústria do petróleo, desperta em diversos líderes globais a impaciência com a beligerância do atual presidente na Casa Branca, a continuidade do conflito tende a pressionar Trump e seu governo internamente, na medida em que repete o desrespeito de antecessores a protocolos legais como a permissão do Congresso para atacar outro país. Além disso, a proximidade das eleições parlamentares desenha um horizonte desfavorável aos republicanos, enfraquecendo a posição do magnata para a segunda metade do mandato.
A duração dos bombardeios suscita medos maiores do que em ocasiões anteriores, pela dimensão do país atacado. Há uma tradição de formação para a guerra no Irã, cujo regime tão pouco liga para o direito internacional em suas relações de vizinhança. Entre as preocupações imediatas, a segurança contra o terrorismo deve ser reforçada, sobretudo nos Estados Unidos, mas também na Europa, em aliados históricos como a Inglaterra e a França. Para piorar a incerteza, o silêncio de Vladimir Putin, ou sua atitude passiva diante dos ataques, faz com que expectativas apocalípticas sejam levantadas, a partir de eventual participação da Rússia em defesa dos iranianos.
Enquanto mais uma guerra de proporções imprevisíveis ganha corpo, a irrelevância da Organização das Nações Unidas (ONU) assusta, pela incapacidade global de articulação e proteção da humanidade perante a força de potências bélicas. Os representantes dos países utilizam o palco midiático das reuniões tão graves quanto ineficazes, mencionando a quebra das leis internacionais por outros países, e o recurso das armas, sempre, como autodefesa. Não por acaso, na medida em que o poder da ONU se esfacela nas últimas décadas, os orçamentos para armas, munições e tecnologia de guerra dispararam. Com todos se preparando para atirar, a garantia da paz fica mais distante.
É possível que os impactos econômicos determinem os rumos dessa guerra nas próximas semanas ou meses, em caso de prolongamento de sua aposta política. O problema é o que pode acontecer antes de a economia impor movimentos de recuo a líderes que nutrem, cada qual ao seu modo, a ilusão da onipotência.