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Ivanildo Sampaio: Justiça para Marielle

Felizmente, a Justiça chegou com atraso, mas chegou: os responsáveis pelo assassinato da vereadora carioca e de seu motorista foram condenados

Por IVANILDO SAMPAIO Publicado em 01/03/2026 às 6:17

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- Um velho bordão, criado pela sabedoria popular e repetido em todas as partes e em todos idiomas, sempre pregou, consciente, que "a Justiça tarda, mas não falha". No Brasil, essa afirmação ganhou uma pequena alteração: "Aqui, a Justiça tarda, e quase sempre falha". Não sem uma certa razão. Ao longo de nossa história vimos e ouvimos narrativas das fontes mais diversas, corroborando essa crença popular, de que no Brasil a justiça só existe para os pretos, os mais pobres, os analfabetos e sacrificados. Para o submundo da sociedade.

Gente abastada "do andar de cima", de pele clara e de colarinho branco, dificilmente senta no banco dos réus - e quando senta, não costuma pagar pelos crimes dos quais é acusada. No início dessa semana, felizmente, a Justiça chegou com atraso, mas chegou: os responsáveis pelo assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, ocorrido no dia 14 de março de 2018, foram condenados a penas duras que, pela idade que hoje têm, leva crer que não sairão com vida da prisão. Foram oito anos de espera por essa conclusão.

- O assassinato de Marielle e de seu motorista, ocorridos nas proximidades da Câmara de Vereadores, no Centro do Rio de Janeiro, chocou o Brasil e foi noticia em várias partes do mundo. Tratava-se de uma ativista política, negra, independente, que fazia oposição tanto às autoridades do seu Estado quando ao Governo Federal, na época ocupado pelo presidente Jair Bolsonaro, da direita radical. Diga-se, em favor da verdade, que Bolsonaro nada teve a ver com isso, seus erros foram outros e noutras atividades que conduziu ao longo do seu mandato. No Caso Marielle, diligências superficiais realizadas pela Policia do Estado, envolvida e comprometida com os assassinatos, apresentavam diversas suposições para os crimes, logo mais descartadas por absoluta falta de consistência. Um delegado que foi se solidarizar com a família, estava envolvido no crime.

A Policia Federal também foi acionada para apurar esse duplo homicídio. As diligências realizadas nunca chegavam a uma solução condizente - Marielle foi lembrada e postumamente reverenciada, pela Familia e pelos amigos, sem que se conhecesse os criminosos.

É verdade que a combatente vereadora carioca se destacava, na Tribuna, pela defesa do Meio ambiente e de áreas ameaçadas na periferia do Rio, onde dominam o crime organizado, grileiros, milícias, traficantes de drogas e outras "gangs" e "sub-gangs" de todas as formas e tendências, numa cidade que, há muito tempo perdeu seu encanto e abdicou de sua antiga nobreza em favor da criminalidade. Fala-se que essa degradação começou lá longe, na gestão do Governador Leonel Brizola, que seria conivente com a população dos morros, onde há gente séria, sim, mas há também traficantes e criminosos que foram, aos poucos, ocupando e ofuscando a antiga poesia dos morros, feita de samba e serenata. Brizola igualou por baixo.

Foi a delação premiada de Ronnie Lessa, um ex-miliciano, autor material dos crimes, que ajudou a desvendar as incertezas que durante um bom tempo manteve sem resposta a grande pergunta:

- "Quem mandou Matar Marielle?". Quem mandou matar foram os irmãos Brazão. Sabia-se que o crime tinha viés político; que Marielle foi assassinada pelo combate que travava na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro em defesa de áreas ainda não ocupadas do município, cada vez mais ameaçadas pela grilagem desenfreada. E sabia-se que por trás do crime estavam figurões desse comércio ilegal. A delação de Ronnie Lessa, assumindo os assassinatos e revelando o nome dos Irmãos Domingos Brazão e João Francisco Brazão como mandantes, colocou um ponto final numa apuração que se arrastou por alguns anos. João Francisco era deputado federal, e o corporativismo de parte da casa não impediu que tivesse seu mandato caçado.

Domingos era conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro - um Estado que viu serem presos por desvio de conduta quase todos os seus governadores nos últimos 30 anos: Antony Garotinho; sua ex-mulher Rosinha Garotinho; Sérgio Cabral; e Pezão, todos acusados de um rosários de crimes que refletem bem onde chegou a política estadual carioca e fluminense...

O Supremo Tribunal Federal, que não hesitou em condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro e alguns militares de alta patente que integraram seu Governo e, com ele, planejaram um golpe de Estado, fez justiça no caso do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.

Os Irmãos Domingos e João Francisco Brazão foram condenados, cada um, a uma pena de 76 anos e 3 meses de prisão; Ronald Pereira "ganhou" uma sentença de 56 anos de reclusão; outras figuras que participaram, de forma direta e indireta, dos assassinatos, também foram condenados, embora com penas menores. A Justiça determinou também o pagamento de indenizações solidárias para as famílias das vítimas - o que será feito de verbas vindas do imenso patrimônio dos dois irmãos Brazão. Que, pela idade mais ou menos avançada e a extensão da pena, provavelmente não voltarão a grilar terras.

Ivanildo Sampaio é jornalista

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