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Editorial JC: Século de conflitos e mortes

Após a destruição das Torres Gêmeas em Nova York em 2001, o mundo parece ter entrado no modo bélico sem controle, num cenário que só piora

Por JC Publicado em 02/03/2026 às 0:00 | Atualizado em 02/03/2026 às 6:43

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A expectativa de um tempo de redenção e paz mundial, ou pelo menos na maior parte dos países, chegou a ser compartilhada por diversos povos, com a queda do Muro de Berlim nos anos 1980. O colapso da União Soviética produziu a ilusão do “fim da história”, segundo a compreensão, defendida por Francis Fukuyama e disseminada como consenso, de que a democracia liberal se estabeleceria sem resistência, com o encerramento aparente da Guerra Fria. A ilusão durou poucos anos.

Em 2001, o ataque terrorista às Torres Gêmeas, em Nova York, é visto por muitos como o marco de uma nova desordem na civilização global. Nessa desordem, instabilidades nacionais se combinam a um ambiente internacional vulnerável, onde as instituições que atuavam depois da Segunda Guerra perdem força, e a força política passa a ser exercida pelo poder bélico ou pela violência de grupos extremistas.

Nos últimos anos, o Oriente Médio e a Europa Oriental têm sido palcos de uma configuração cuja arrumação ainda está em curso. A multiplicação de grupos radicais, em larga medida patrocinados pelo Irã, e a reação de potências econômicas e armamentistas, mostram um mundo perigosamente frágil em formação. A ascensão de personalidades de ímpeto conquistador e aniquilador, como Vladimir Putin, na Rússia, Benjamin Netanyahu, em Israel, e Donald Trump, nos Estados Unidos, provoca um alinhamento explosivo para a construção da nova geopolítica. Sem o menor respeito às leis internacionais ou aos direitos humanos de povos invadidos, tais líderes aparecem como salvadores de suas pátrias, exaltando o nacionalismo que lembra as raízes do atual século no século passado.

Com a colaboração dessas lideranças e o desamparo dos demais líderes diante da irrelevância de organismos como as Nações Unidas, a lógica da destruição, da aniquilação do outro, e da brutalidade justificada por outra brutalidade, vem se tornando parte da rotina dos noticiários e das informações compartilhadas pelas redes sociais. Há uma normalização da pulsão de morte que põe as guerras na rotina de uma civilização cada vez mais acostumada com as ruínas e as vidas arruinadas ou perdidas nos campos de batalha, por mísseis e drones.

Quase 300 mísseis russos caíram na Ucrânia no último mês de fevereiro, mais que o dobro do total lançado em janeiro, numa guerra que já dura anos e não apresenta prazo para terminar. A invasão comandada por Putin tem conotações territorialistas e imperialistas, assim como as recentes investidas de Trump na Venezuela e no Irã. No caso iraniano, a dobradinha de norte-americanos e israelenses conta com amplo apoio da população de Israel, e por enquanto, pouco entusiasmo nos EUA, com mais problemas do que aplausos para a Casa Branca.

O prolongamento do conflito, e seus possíveis desdobramentos em terrorismo, tendem a ser um fator de desestabilização da liderança de Trump, mais do que de Netanyahu.
Enquanto a política faz cálculos, a civilização global desmorona, como se fosse o prelúdio do verdadeiro fim da história.

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