Da resistência à cidadania
Data nacional que recorda a morte de Zumbi dos Palmares simboliza a força ativa da identidade histórica que segue em busca de justiça social
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O legado da população escravizada, comercializada feito mercadoria da África, está nas diversas manifestações culturais, na mistura religiosa e na base da formação do povo brasileiro. Ainda assim, o sofrimento dos antepassados perdura nas gerações que vieram de séculos atrás, na convivência entre indivíduos de variadas origens que não afastaram de vez o racismo que se confunde com segregação social no Brasil. Num país de pobreza e miséria com coloração da pele predominante, a desigualdade reaparece sempre como uma chaga da qual não podemos nos esquecer – embora possamos superar, na direção de uma nação melhor.
A Consciência Negra é a necessidade de persistência. Do resgate constante das matrizes afro-brasileiras. Da imposição da dívida da exploração desumana no passado, que não se esconde na exploração desumana no presente. De políticas afirmativas que não apenas levem em consideração o legado de dor, mas também a responsabilidade coletiva pela recuperação da justiça para os explorados e seus descendentes. Da multiplicação de oportunidades ao invés de portas e janelas fechadas pela intolerância racista ou pela indiferença. De mais inclusão e menos exclusão. Do acolhimento, e não, da violência.
A democracia racial não deve ser tomada como mítica, nem utópica. A democracia racial é parte da conquista democrática que se consolida na construção ininterrupta da cidadania brasileira. Se hoje há mais consciência do que ontem, não quer dizer que o racismo tenha sido superado. E o que se aponta ao racismo estrutural não vem a ser causa ilusória, mas motivação profunda de uma história cultural forjada na exploração econômica de um tempo que passou, mas não se foi no que deixou para frente: o futuro resulta do que fomos e fizemos, do passado que se atualiza quando seus efeitos não são reconhecidos e dimensionados.
O que não pode persistir num país que persevera no rumo da democratização inconclusa, para agregar cidadãs e cidadãos de todas as raças, sobretudo a mais castigada pela segregação social, são coisas como a maior incidência da violência e da injustiça contra os negros. Segundo o IBGE, a desigualdade é escancarada, por exemplo, quando os rendimentos dos brancos são mais que 60% superiores aos dos negros, para funções equivalentes. As estatísticas revelam o lado visível do racismo, cuja permanência atua como um assédio assombroso, às vezes silencioso, outras vezes não, sobre as gerações negras da atualidade.
O Dia da Consciência Negra não há de ser compreendido e exaltado por apenas uma parcela da população. Trata-se de espelho coletivo para o reflexo nacional, com as alegrias da formação e as dores da discriminação. Quanto mais nos vermos nessa imagem, juntos e juntas, seremos capazes de abraçar com empatia a mensagem da valorização da negritude na essência da brasilidade.