Tragédia como destino
A falta de fiscalização para a mobilidade nas estradas pode ser a causa de sinistros com vítimas fatais, como o da última sexta, em Saloá
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O Agreste pernambucano foi palco de travessia mortal para 17 passageiros de um ônibus que cruzava o estado, na última sexta, na BR-423 em Saloá. Quase a metade dos passageiros, de maioria feminina, morreram. Estavam retornando para a Bahia, depois de visita a Santa Cruz do Capibaribe, polo de confecções que costuma atrair gente de todo o Nordeste, em um fluxo conhecido do turismo de negócios na região. O motorista perdeu o controle do veículo, e uma das hipóteses sugere que parte das vítimas estava sem o cinto de segurança, pois foram arremessadas para fora do ônibus, devido ao sinistro.
Com ferimentos leves, o motorista da viagem trágica fez teste de bafômetro, que constatou que ele não havia ingerido bebida alcóolica. Devanir Rodrigues concedeu entrevista, depois, afirmando que estava muito triste com o ocorrido, e que o freio falhou numa descida, quando o trajeto parecia tranquilo. Se a responsabilidade pela condução era dele, uma tragédia como essa requer olhar distanciado, na medida do possível, do sofrimento dos sobreviventes e das famílias de quem perdeu a vida. Há que se buscar, além de eventuais culpados na sequência de eventos que resultou na falta do freio, a responsabilização coletiva na gestão das estradas e da mobilidade interestadual.
Ainda há perguntas a serem respondidas para explicar a tragédia, e certamente o motorista, que anunciou a decisão de abandonar o serviço, pode colaborar com o esclarecimento do fato. Mas o que aconteceu não tem volta, e o importante agora é identificar motivos estruturais que fizeram com que as consequências da falha mecânica fossem fatais para tanta gente. E um desses motivos pode ser a fiscalização inadequada ou insuficiente dos serviços de transporte de passageiros em Pernambuco e em outros estados do Nordeste. O ônibus tinha condições para o deslocamento? O número de passageiros condizia com a capacidade? A sinalização no trecho do sinistro era boa? E o que pode ser feito para minimizar os riscos de que algo assim se repita, não apenas nesse trecho, mas em qualquer ponto das estradas nordestinas?
A segurança viária é fundamental para a prevenção de sinistros nas estradas, tanto para assegurar que comportamentos perigosos não exponham outras pessoas, quanto manter padrões a serem respeitados pelas empresas de transporte coletivo. A fiscalização nas estradas é necessária para que a segurança viária seja alcançada, e evite a tragédia como destino em roteiros percorridos diariamente. A Polícia Rodoviária Federal costuma ampliar suas ações nos períodos festivos e de férias, em operações que poderiam ser realizadas o ano inteiro. Governos estaduais e municipais podem fazer a sua parte, impedindo a circulação de veículos impróprios para o transporte de passageiros.
O excesso de velocidade e a carência de fiscalização estão entre as principais causas dos sinistros nas estradas brasileiras. A tragédia no Agreste pernambucano é mais uma que poderia, talvez, ter sido evitada.