A lógica do voto
As pautas a direita e a esquerda são diferentes, embora se aproximem, disfarçadas, em tempos de promessas eleitorais.....................
Clique aqui e escute a matéria
Independente do resultado no segundo turno, o voto eletrônico, auditável e rapidamente apurado fez suas escolhas. Gostando ou não, deve-se respeitar e refletir.
Os termos direita e esquerda surgiram no século XVIII, tempo da revolução francesa. Na Assembleia Nacional Constituinte, os defensores da manutenção da ordem social, da tradição, da monarquia, sentavam a direita do presidente da Assembleia. Lá estavam os membros da nobreza, do clero e os representantes do antigo regime. Defendiam a manutenção do poder real, a autoridade da Igreja e a preservação das tradições e hierarquias estabelecidas. À esquerda sentavam os que defendiam limitações para o poder do rei, maior igualdade política e mudanças mais profundas. Lá estavam representantes dos trabalhadores defendendo reformas, igualdade jurídica e estado laico.
O que era uma posição física no plenário, passou a simbolizar correntes ideológicas com a esquerda mais voltada para igualdade social e econômica, direitos civis e políticos, maior presença do estado na economia, mais movimentos socialistas e comunistas. A direita defendendo o conservadorismo e liberalismo econômico, menor intervenção estatal na economia, defesa da propriedade e da livre iniciativa. Ao longo da história esteve mais envolvida com a defesa do estado mínimo, da tradição religiosa e armamento. Se posicionou contra a imigração, a escola, transporte e saúde universais, reforma agrária, abolição da escravidão e liberdade cultural. Mais recentemente abraçou o movimento antivacinas. Defende posições rígidas na segurança pública e protecionismo econômico. Caminhou ao lado de ditaduras militares com nacionalismo exacerbado, exaltação da família e da tradição religiosa. Historicamente esteve contrária à limitação da jornada de trabalho, ao direito de sindicalização e greve, salário-mínimo, previdência social obrigatória e foi mais resistente à expansão dos direitos políticos e sociais das mulheres.
Só por razões de estabilidade social ou prevenção de revoluções socialistas votaram a favor dessas pautas.
Muitas adaptações, variações, mudanças, sucessos e insucessos ocorreram ao longo do tempo. Hoje há partidos de direita que defendem intervenção estatal em certas áreas e partidos de esquerda que apoiam a liberdade do mercado. Pode-se defender o livre mercado e ser progressista nas pautas sociais, mas esse meio termo não tem encontrado espaço no ambiente polarizado.
A atual expansão da direita no mundo não ocorre à toa. Não resulta apenas de uma nova forma de comunicação através da internet, dos algoritmos manipulando a verdade e usando a neurociência para moldar o pensamento e o comportamento das massas, mas também da insatisfação com as entregas de governos de esquerda que, em alguns casos, debandaram até para o autoritarismo e ditaduras violentas.
As pautas a direita e a esquerda são diferentes, embora se aproximem, disfarçadas, em tempos de promessas eleitorais. Extremistas se vestem de cordeiros democratas e, em um país com alto índice de violência e insegurança, o discurso de combate ao crime com mais prisões é sedutor, mesmo sabendo que com tamanha desigualdade, sem um estado fortemente voltado para o bem-estar social, para as regulações trabalhistas e ambientais, jamais haverá paz. A tese do "bandido bom é bandido morto" não diminui a desigualdade social que é a base da violência, alimentada pela roubalheira engravatada dos altos escalões.
A lógica do voto coerente com a situação do Brasil seria procurar quem tem maior compromisso com a educação, com a inclusão, redução das desigualdades e menor necessidade de presídios. Seria votar com a leveza das canções: "ainda há de haver esperança em cada um de nós, enquanto houver sol" "eu vejo a vida melhor no futuro, eu vejo isso por cima de um muro de hipocrisia que insiste em nos cercar" "mas é claro que o sol vai voltar amanhã, mais uma vez".
Sérgio Gondim, médico