Para superar a mediocridade
O principal motivo da mediocridade econômica do Brasil tem sido a baixa taxa de investimento (público e privado) que flutua em torno de 17% do PIB.
Clique aqui e escute a matéria
Para superar o conformismo do Brasil com o medíocre desempenho da economia brasileira ao longo deste século (modestos 2,3% ao ano), o futuro presidente da República, que será eleito no próximo dia 25, deverá definir uma política econômica que dinamize a economia. Mais do que a diferença do tamanho e do perfil do ajuste fiscal de cada um dos candidatos, o que está em jogo para o futuro do Brasil é o enfrentamento dos entraves estruturais que inibem o crescimento econômico. Para tanto, a prioridade estratégica tem que se deslocar do consumo para os investimentos, da transferência de renda para a qualificação profissional, do protecionismo comercial para a integração competitiva.
O principal motivo da mediocridade econômica do Brasil tem sido a baixa taxa de investimento (público e privado) que flutua em torno de modestíssimos 17% do PIB (e o investimento público representa menos de 3% das despesas primárias da União). Para se ter um parâmetro, a média histórica da taxa de investimento da Coreia do Sul desde 1960 foi de 35,3% do PIB (atualmente alcança 24,3% do PIB), o que possibilitou que este país asiático chegasse a um PIB per capita três vezes superior ao brasileiro (em 1960, o PIB per capita da Coreia era inferior ao brasileiro), acompanhado da melhoria dos indicadores sociais coreanos.
Ao longo deste século, os governos brasileiros priorizaram o fomento ao consumo da população através das políticas sociais que elevaram a renda dos pobres (elevação real do salário-mínimo, transferência de renda e crédito favorecido). Política socialmente correta, esta ênfase no consumo não gerou o círculo virtuoso que prometiam porque não foi acompanhada por investimentos que elevassem a capacidade de produção e, portanto, a ampliação da renda. Para intensificar as políticas sociais, os governos vêm elevando gastos primários e operando com déficit público, o que os obriga captar grande volume da poupança nacional, poupança que deveria financiar os investimentos. O grande estímulo ao consumo da sociedade e o descuido com as finanças públicas levaram aos elevados níveis atuais de endividamento das famílias e do Estado brasileiro, ambos gastando acima da receita. O consumo é o objetivo final da produção e é justo o maior acesso da população pobre a bens e serviços, mas sem investimento a economia brasileira vai continuar com baixo crescimento, o que termina contendo o aumento da renda das famílias e contraindo a capacidade de gastos do Estado.
Para superar esta mediocridade, o Brasil precisa reorientar radicalmente a sua estratégia priorizando os investimentos, porque são estes que aumentam a capacidade produtiva do Brasil, ampliando a renda das famílias que alimenta o consumo. A prioridade ao investimento deve estar associada à promoção do aumento da produtividade, principalmente da produtividade do trabalho (praticamente estagnada no Brasil) que depende de duas variáveis fundamentais: inovação e qualificação profissional (vinculadas ambas à educação). O aumento da produtividade ganha mais relevância diante da tendência de declínio da PIA-População em Idade Ativa que, segundo estimativas do IBGE deve começar a diminuir, em termos absolutos, a partir de 2050. Nos próximos dez anos, a PIA deve crescer apenas de 0,16% ao ano e os brasileiros inativos (crianças e idosos) crescerão em torno de 0,22%. Assim, o Brasil terá cada vez mais pessoas demandando renda para cada vez menos brasileiros gerando renda.
Por tudo isto, antes de perguntar aos candidatos como eles vão lidar com as dificuldades fiscais, melhor investigar o que eles propõem para acelerar o investimento e elevar produtividade de modo a destravar a economia e abrir um ciclo de expansão econômica em ritmo sustentável. O que, de toda forma, passa pela recuperação da capacidade de investimento dos governos e que, portanto, demanda uma requalificação das finanças públicas. Mas, esta é apenas um meio para a retomada dos investimentos e dinamização da economia.
Sérgio C. Buarque, economista