Jomard Muniz de Britto
Por muitas vezes, recebi e distribuí seus textos entre amigos. Toda semana tínhamos um "Atentados Poéticos", texto intrincado, ritmado e precioso
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Eram os anos 80; eu contava uns 16 anos de idade e residia com meu pai na Ladeira da Sé, em Olinda-PE. Em frente à casa ficava o Restaurante Mirante, com música ao vivo, sempre lotado. Certa noite, fui avisado de que Jomard estaria lá acompanhando Gilberto Gil e de que eu poderia participar da mesa.
Fui, claro. Em Gil, entendia que todos os ritmos do Brasil estavam presentes e que estaria acompanhado e ciceroneado por JMB, que conhecia a música popular brasileira, o cinema, o teatro, a filosofia e muito mais. Jomard era amigo de Glauber Rocha, que o tinha como homem de confiança para certas tarefas.
Um passeio embriagante por histórias pessoais e memórias musicais. Bom de ouvir, muito para sonhar. E assim se passaram as horas, entre projetos, cantores, músicas e acontecimentos, tudo num astral fantástico. Queixas? Não recordo. Dores? Também não.
Jomard era um velho conhecido de meu pai. Foram professores do método Paulo Freire; ambos aposentados em 1964, processados pela Justiça Militar e proibidos de lecionar. Brasil curioso, em que as Forças Armadas impedem educadores e um método de ensino.
A Revista Estudos Universitários foi encerrada. A Rádio Universitária e tantos outros meios de interpenetração entre a sociedade e a universidade sofreram com afastamentos e termo. Houve processo administrativo também. E assim caminhamos para uma sociedade em que pensar e debater são negados, proibidos, e o resultado são anos e anos de atraso.
Jomard superou a cana no Forte das Cinco Pontas, onde dividiu cela com Gregório Bezerra. Recebia a visita materna, que penava para ingressar e ver o filho. É curioso e belo o amor maternal que enfrentava a força e questionava a razão ou a falta de razão da prisão de um inocente. Foi perseguido pelo regime e afastado da Universidade da Paraíba.
Passados mais de 50 anos da redentora, convocado como testemunha, deu um verdadeiro e comovente depoimento na Justiça Federal. Perguntado se participou da Equipe Paulo Freire, respondeu que sim e que essa teria sido uma das mais belas experiências que tivera na vida: levar a universidade para o povo e trazer o povo para a universidade. Disse ter conhecido uma verdade: “Ensinava e aprendia”. O método era revolucionário.
Questionado sobre a prisão, foi ainda mais enfático: “Deveria ter sido muitas vezes mais”. Como entender e classificar uma alma liberta e libertária?
Por muitas vezes, recebi e distribuí seus textos entre amigos. Toda semana tínhamos um “Atentados Poéticos”, texto intrincado, ritmado e precioso, produzido por Jomard.
Assistimos juntos à Copa do Mundo de 1994. Parecia gostar de futebol. Todos os elementos daquele caldeirão que mexe com a nação.
Faleceu, deixando Pernambuco menos libertário. Um velório diferente, com depoimentos, declamações, versos, música, palmas e gritos, muitos gritos de viva Jomard!
Carlos Carvalho – Advogado.