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Dois mocambos e uma cidade

A cidade nunca foi uma só. Sob as grandes obras e os discursos de modernização, persistem outras geografias.............................

Por Dirceu Marroquim Publicado em 10/10/2026 às 0:00 | Atualizado em 14/10/2026 às 12:00

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Movido pela curiosidade, o narrador decidiu entrar "naquele trecho de rua pobre" e, logo depois, "estava num labirinto tão intricado de ruas e travessas, de atalhos, de becos sem saídas" que, para sair dali, precisou perguntar a um morador local. Antes de levá-lo ao ponto do bonde, o homem fez questão de tirar da cadeira o paletó de brim para apresentar-lhe o lugar. Tratava-se de uma comunidade de mocambos no Recife. Aos olhos do narrador, era uma outra cidade, distinta do centro. O livro que conta essa história, Mocambos..., foi publicado em 1936. Três anos depois, outro romance seria publicado: Mocambo, de 1939. São narrativas distintas sobre lugares semelhantes, mostrando a complexidade de uma cidade.

Mas essa é uma história que começa com gente ou, melhor, com autoria. Chagas Ribeiro, político, jornalista, cineasta e comunista, não escondia de onde queria falar. Na abertura de Mocambos..., dizia querer demonstrar que já era possível escrever entre nós um "romance proletário, escrito pelo próprio proletariado". Essa população, porém, não vivia fora do Recife dos grandes prédios. Pegava bondes, trabalhava em fábricas e tipografias, frequentava feiras, atravessava Afogados, Campo Grande e Encruzilhada. Todo mundo vinha de algum lugar.

Há, porém, uma camada ainda mais funda nessa geografia. "Mucambo" não é uma palavra neutra. Gilberto Freyre, em seu estudo de 1937, atribuía sua origem ao quimbundo, de "mu kambo", com o sentido de "esconderijo". E a palavra carregava uma memória muito anterior à habitação pobre do Recife. Antes de ser transformado em categoria da pobreza urbana, o termo já estava ligado à experiência negra de refúgio, liberdade e resistência.

Essa memória torna mais complexa a paisagem dos mocambos recifenses. O Censo de 1923 apontava que esse tipo de habitação representava 46,15% do total de edifícios da cidade, o tipo numericamente mais expressivo. A cidade de palha, barro e mangue era também uma cidade racializada, formada, em grande medida, por trabalhadores negros e pardos, herdeiros de uma liberdade conquistada sem que viessem, junto com ela, terra, moradia ou igualdade.

Em Chagas Ribeiro, o mocambo aparece sobretudo como consequência dessa estrutura. Os pobres aterram terrenos, constroem casas e criam vizinhanças; depois surgem proprietários, cobradores de foro, ameaças e expulsões. Em uma passagem poderosa, o autor trata o mocambo como fundador da "cidade plebeia do Recife", ao mesmo tempo que o vê sendo empurrado cada vez mais para longe. A periferia não é natural: ela é produzida.

Antônio Barretto observa, em 1939, a mesma cidade por outra perspectiva. Em Mocambo, seus moradores também trabalham, amam, adoecem, pegam bondes e participam das festas e das ruas. O autor chega a dizer que eles "comungam da vida da cidade". Sua narrativa, porém, aproxima-se de uma solução reformadora: a pobreza torna-se um problema de governo, higiene e modernização, e a substituição do mocambo pela casa de tijolos aparece como parte de um projeto de transformação urbana. Trata-se de uma retórica cara ao Estado Novo (1937-1945), período em que foi criada a Liga Social Contra o Mocambo, em 1939. Agamenon Magalhães, interventor federal em Pernambuco, inclusive, escreveu o prefácio do livro.

Lidos juntos, os dois romances revelam mais do que duas visões sobre uma forma de morar. Revelam uma disputa sobre quem produz a cidade e quem tem o direito de permanecer nela. Chagas pergunta por que aqueles que constroem e fazem funcionar o Recife não conseguem habitá-lo com segurança. Barretto pergunta como transformar suas condições de moradia e incorporá-los à cidade moderna.

Talvez os dois ainda nos ajudem a olhar o Recife de hoje. A cidade nunca foi uma só. Sob as grandes obras e os discursos de modernização, persistem outras geografias, feitas de trabalho, deslocamento, memória, desigualdade e resistência. Humanizar essa história é lembrar que o mocambo nunca foi apenas palha e barro. Foi casa, refúgio, vizinhança, conflito e pertencimento. E, em muitos sentidos, também uma forma de disputar o direito de existir na cidade.

Dirceu Marroquim, doutor em História pela USP e Diretor do Museu da Cidade do Recife

 

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