Merecemos sobreviver?
Churchill, já com mais de sessenta anos e considerado um homem do passado, era um dos poucos a enxergar a tempestade que se formava
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Em 1936, diante do rearmamento alemão e da hesitação das democracias europeias, Churchill perguntou: "Podemos sobreviver? Merecemos sobreviver quando não há coragem em parte alguma?" O velho buldogue, já com mais de sessenta anos e considerado um homem do passado, era um dos poucos a enxergar a tempestade que se formava. Suas advertências, entretanto, foram ignoradas, mas atravessaram o Canal da Mancha e Hitler reagiu: "Oh, céus, o que é, afinal, a democracia? Quem a define? Terá o Todo-Poderoso entregue a chave da democracia a pessoas como Churchill? [...] Parece viver no mundo da lua."
O Führer referia-se aos milhões de votos do Partido Nazista na década de 1930, em contraste com os poucos milhares de Churchill em seu distrito. A comparação era falaciosa, mas servia à retórica do pintor austríaco. Esse era o tempo do apaziguamento, quando boa parte das elites políticas britânica e francesa consideravam justas algumas reivindicações alemãs.
O Tratado de Versalhes fora severo; a Alemanha fora humilhada ao fim da Primeira Guerra e permitir seu rearmamento e aceitar revisões territoriais poderia evitar outra catástrofe. Prudência? Não. Churchill enxergava covardia e em 1938, ele advertiu: "A ditadura — o culto fetichista a um indivíduo — é uma fase passageira. Uma sociedade em que os homens não podem dizer o que pensam, em que os filhos denunciam os pais à polícia, em que um empresário ou pequeno comerciante arruína o concorrente inventando histórias sobre suas opiniões — tal sociedade não consegue durar muito quando entra em contato com o mundo exterior saudável."
O velho teimoso, entre charutos, Brandy e taças de Pol Roger, continuava bradando: "Alexandre, o Grande, observou que os povos da Ásia eram escravos porque não tinham aprendido a dizer a palavra 'Não'." E prosseguia: "No coração dos homens submetidos existe um medo não declarado. Temem até os próprios pensamentos, que se tornam tanto mais poderosos quanto mais são proibidos."
Churchill estava cada vez mais isolado. Exasperado diante da paralisia britânica e temendo que os Estados Unidos só reagissem quando fosse tarde demais, lançou suas palavras através do Atlântico: "Vão esperar até que a liberdade e a independência britânicas sucumbam e então abraçarão a causa, quando três quartos dela estiverem destruídos e vocês, sozinhos?" Franklin D. Roosevelt ouvia, mas os Estados Unidos não desejavam ver novamente seus jovens atravessando o Atlântico para morrer em outro continente: que os europeus resolvam entre si.
Churchill sabia que sua insistência poderia custar-lhe a carreira política. Ainda assim, não recuou. Em novembro de 1936, acusou o governo britânico: "Prosseguem num estranho paradoxo, decididos apenas a ser indecisos, resolvidos a ser irresolutos, inflexíveis na oscilação, sólidos na liquidez, onipotentes na impotência." Mostrou que há momentos em que a conveniência eleitoral entra em conflito com a verdade, a qual privilegiou em detrimento de possíveis votos.
Também poucos homens de seu tempo combateram o bolchevismo com tanta ferocidade. Churchill detestava Lênin e a revolução que ele comandara e ao recordar a decisão alemã de facilitar a viagem de Lênin da Suíça para a Rússia durante a Primeira Guerra, escreveu: "Tal como se enviaria um frasco contendo uma cultura de tifo ou de cólera para ser despejada nos reservatórios de água de uma grande cidade."
A operação funcionou. A Revolução Russa derrubou a ordem existente, os bolcheviques chegaram ao poder e a Rússia acabou saindo da guerra. Não foi suficiente para impedir a derrota alemã em 1918, mas alterou para sempre o curso da história.
Churchill continuaria inimigo do comunismo por toda a vida, mas conhecia a Realpolitik e sabia que assim como há hierarquia na Beleza e na Justiça, também há na Política. Em 1939, Stálin assinou com Hitler o Pacto Molotov–Ribbentrop, que levou à divisão da Polônia entre alemães e soviéticos e liberou Moscou para invadir os países bálticos.
A aliança durou até 22 de junho de 1941, quando Hitler rompeu o pacto e lançou a Operação Barbarossa, o que devastou a Mãe Rússia, surpreendendo Stálin, apesar dos avisos britânicos. O país que Churchill abominava tornava-se, de repente, indispensável à derrota do inimigo que considerava ainda pior.
Stálin suplicou por ajuda e ele não hesitou: "O regime nazista é indistinguível dos piores aspectos do comunismo [...] Não desdigo uma só palavra que proferi [...], mas tudo isso se extingue diante do espetáculo que agora começa. O passado, com seus crimes, loucuras e tragédias, some num lampejo." Não era conversão ideológica. Era hierarquia.
Churchill continuava considerando o comunismo um mal, mas naquele momento, havia diante dele um mal maior e mais urgente: princípios são indispensáveis, mas não eliminam a necessidade de escolher. E escolhas reais raramente acontecem entre alternativas puras. O estadista pode ser obrigado a conviver com aquilo que despreza para impedir aquilo que considera ainda pior. A história não se repete como uma equação, mas as perguntas podem sobreviver ao seu tempo.
Este artigo não é sobre Churchill, mas sobre senadores, juízes, jornalistas, eu e você. Sobre silêncio e coragem. Sobre apaziguamento, escolhas morais e Realpolitik. É, sobretudo, sobre uma pergunta feita por um velho político desacreditado quando quase ninguém queria ouvi-lo: Podemos sobreviver? merecemos sobreviver?
*Ermano Melo, oftalmologista