A Alemanha dividida
A Alemanha corre o risco de ampliação futura dos espaços de poder da extrema direita no país..........................................
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Quando da reunificação da Alemanha, o filósofo alemão Jürgen Habermas condenou a simples absorção da parte oriental (desestruturada e economicamente falida) pela Alemanha Ocidental. Em artigo publicado no Die Zeit (março de 1990), Habermas criticou a substituição da reflexão política democrática pelo apelo à prosperidade econômica e ao consumo.
Passados mais de 36 anos, a Alemanha unificada consolidou a democracia e promoveu prosperidade econômica em todo território. Mas, a desigualdade econômica entre as duas partes persiste. Apesar dos investimentos realizados no Leste pelo processo de reunificação - mais de 2 trilhões de euros desde 1990 - combinando privatização e modernização, os Estados da antiga Alemanha Oriental são os mais pobres (mais baixos PIB per capita), têm os menores salários médios da Alemanha, o poder econômico representa apenas 73% da média alemã e a renda está bem abaixo do nível ocidental (Deutsche Welle).
Esta desigualdade econômica gerou uma frustração das expectativas de prosperidade decorrente da reunificação. Como temia Habermas, a desigualdade leva ao ressentimento dos alemães orientais que se sentem a parte pobre de um país muito rico. O que pode explicar a divisão política e territorial da Alemanha, com a força da extrema direita limitada aos cinco Estados que formavam antes a Alemanha Oriental. Quando se comparam os votos obtidos pela AfD nas últimas eleições gerais para o Bundestag (parlamento alemão) e o PIB per capita dos Estados, percebe-se uma correlação inversa: a extrema direita cresce nos Estados que têm o menor PIB per capita.
A população dos Estados a leste da Alemanha não tinha o nível de renda e a modernidade que tem agora como parte da Alemanha unificada, mas aparecem como os perdedores da reunificação e da globalização. Na antiga Alemanha Oriental, os alemães não tinham liberdade - era um dos regimes mais autoritários do bloco soviético - mas talvez sentissem ordem, estabilidade, segurança e previsibilidade. Não que a Alemanha unificada seja um país instável e inseguro, mas vive com grandes incertezas e padece de dificuldades econômicas e políticas de qualquer democracia no mundo contemporâneo.
Os cidadãos da antiga Alemanha Oriental deviam se comparar mais com os países do bloco soviético, Alemanha Ocidental vista como outro país com um regime político diferente e uma economia de mercado. Na época, a Alemanha Oriental era uma das mais bem sucedidas nações do bloco soviético. Alemães orientais eram os ricos do aglomerado de países atrelados à União Soviética e a agora são a parte pobre de um país muito rico.
Por outro lado, é possível que, além da decepção e do ressentimento com os alemães ricos, os eleitores da extrema direita (AfD) sejam motivados por um saudosismo do velho regime autoritário e estatizado, os resquícios do stalinismo, que desmoronou em 1989.
Não por acaso, no seu programa, a AfD rejeita o apoio da Alemanha à Ucrânia, invadida pela Rússia, e defende o ensino de russo nas escolas da Alemanha. E, em se tratando da Alemanha, não é estranho que este saudosismo de um regime autoritário libere junto o fantasma do nazismo. O partido de extrema-direita defende uma reformulação do currículo escolar para reduzir a presença da "cultura da memória" que foca nos crimes do período nazista, em vez promover eras de "sucesso".
Embora a força da extrema direita esteja concentrada na parte leste do território, a sua influência tem crescido no conjunto nacional, para inquietação das forças democráticas da Alemanha e de toda a Europa. Pelo menos um aspecto da plataforma política da AfD tende a sensibilizar o eleitorado de todo o país: a política anti-imigração. E, na verdade, a presença de imigrantes é bem maior exatamente nos Estados do ocidente. Quando associada às dificuldades econômicas - baixo crescimento, pressões fiscais e energéticas e alta da inflação - a Alemanha corre o risco de ampliação futura dos espaços de poder da extrema direita no país.
Sérgio C. Buarque, economista