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Não tive Orkut

As correntes são as telas dos aparelhos. Neles, as sombras ganharam cores, músicas e algoritmos capazes de descobrir aquilo de que gostamos....

Por OTÁVIO SANTANA DO RÊGO BARROS Publicado em 12/09/2026 às 0:00 | Atualizado em 14/09/2026 às 16:47

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Não tenho Facebook, essa criação genial de Mark Zuckerberg e de seu parceiro brasileiro, Eduardo Saverin, a maior rede social em operação global.

Não tenho Twitter, plataforma sob as ordens de Elon Musk. A propósito, não consigo chamá-lo de X.

TikTok, nem pensar. Sou péssimo dançarino. Nem sei se ainda é dirigido por Zhang Yiming.

YouTube, por força da necessidade de assistir aos jogos da Copa do Mundo que eu bem quisesse, assinei o plano Premium. Mas já estou pensando em sair…

Instagram, também não o utilizo. Há outras redes...

Sim, o WhatsApp. Desse não consegui me safar.

No meu entorno, o aplicativo assumiu o controle das comunicações familiares e profissionais.

Quem se lembra da última vez que falou em um telefone fixo? Em casa, ele só toca para oferecer produtos da minha própria operadora e que, normalmente, eu já tenho.

E quando foi a última vez que você falou em um smartphone com alguém? Atenção, estou falando "falar".

A voga é gravar áudio.

Pare na rua e observe. As criaturas caminham para cima e para baixo, com o celular ora encostado ao ouvido, ora à boca, lembrando The Walking Dead.

Mas, se reajo a esses aplicativos, como deleitar-me pelas fotos dos gêmeos Galeguinho e Cabeludinho? Como explodir de alegria pelas fotos do Neto mais Velho e do Neto mais Novo, lá de Recife?

Como disse, a solução: WhatsApp!

Mas quer que eu lhe diga uma coisa? Dou graças a Deus por não ter sido e não ser usuário dessas redes.

Paradoxalmente, fui uma figura pública que não se expunha ao público. Velho démodé ou isentão, poderiam me criticar os jovens ou os ideológicos. E daí?

Sinto-me liberto das amarras dos algoritmos que, propositalmente ou não, vêm operando sobre nós e nos expondo, nos últimos tempos, ao efeito manada do opinar. Engenheiros do Caos, escrito por Giuliano Da Empoli, é uma boa obra para entender o processo.

Consigo pensar de forma solitária. Não sei se é a melhor maneira de formar opinião. Mas é a que mais me permite preservar genuína independência diante do barulho que nos cerca.

Sei que muitos usam essas ferramentas para se tornarem conhecidos. Para ganhar dinheiro. Para defender suas ideias. Para opinar sem contraditório. Para encontrar semelhantes. Para afastar diferentes.

Em tempos de eleições maniqueístas, esses aplicativos tornaram-se talvez o mais importante canal de que dispõem os candidatos para lacrar seus adversários. Apresentar propostas sólidas e discuti-las com seus eleitores? Deixa para lá…

Apesar de tudo isso, não sou alienado e, portanto, é imperativo reconhecer que o mundo de hoje dificilmente possui forma mais eficaz de interação do que essas ferramentas.

Por isso, fico rindo com o programa eleitoral gratuito. Percebo o desperdício de tempo e dinheiro dos partidos e de seus candidatos para se fazerem presentes nas telas das televisões e nas emissoras de rádio, quando quase ninguém mais lhes dá bola.

Nos últimos anos, você, de caso pensado, já se aboletou diante da televisão ou do rádio para ver ou ouvir um desses programas? Meus filhos, na adolescência, os via como um programa humorístico. Hoje, nem isso.

Posso ser contraditado, mas acho difícil que, majoritariamente, a sua resposta seja afirmativa.

A arena mudou.

E aqui começa uma inquietação maior.

Platão, no Mito da Caverna, imaginou homens acorrentados, contemplando sombras projetadas em uma parede e convencidos de que elas eram a própria realidade.

Talvez hoje tenhamos apenas sofisticado a caverna.

As correntes são as telas dos aparelhos. Neles, as sombras ganharam cores, músicas e algoritmos capazes de descobrir aquilo de que gostamos, aquilo que tememos e, sobretudo, aquilo em que já acreditamos.

Para Platão, libertar-se significava romper as correntes e caminhar em direção à luz do Sol.

Neste estranho mundo do agora, se de fato você busca a independência, comece por romper essa corrente incômoda com uma reflexão também incômoda:

Quem está escolhendo as sombras que você vê?

Otávio Santana do Rêgo Barros, general de Divisão de Reserva

 

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