"A velhice pede desculpas"
O ato de sobrevivência distancia-se das ilusões de um horizonte democrático ou igualitário. A longevidade manifesta-se em sua crueza estrutural
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O envelhecimento constitui um fluxo inexorável, indiferente a domingos, feriados ou respiros do calendário. À margem das retóricas de poder, a luta pela vida é ignorada pela engrenagem social, fazendo com que os sobreviventes do tempo se transformem em criaturas solitárias, tristes ou melancólicas. Na cartografia da longevidade, as rugas aprofundam-se lentamente como se fossem tatuagens. Cada marca no rosto reflete um roteiro biológico, emocional e social que se revela sem disfarces.
O ato de sobrevivência distancia-se das ilusões de um horizonte democrático ou igualitário. Desprovida de qualquer romantismo, a longevidade manifesta-se em sua crueza estrutural, revelando que a integridade física e o vigor emocional são profundamente moldados pelas disparidades socioeconômicas. Abrem-se, sob a crueza do tempo, os abismos existenciais e materiais que fraturam a velhice em realidades distintas: de um lado, o envelhecer resguardado pelo capital e pelo suporte privado; de outro, o destino desamparado daqueles lançados às contingências e vulnerabilidades da rede pública de saúde ou SUS.
A mera vontade, sob os influxos da poesia e do romance, tem convertido a velhice em uma metrópole quimérica. Sob a lente da estética, a idade provecta deixa de ser o crepúsculo natural da existência para se transfigurar em um território de corpos vigorosos que desafiam os limites da carne em academias e estúdios de Pilates. Nesses espaços, a geração "baby boomer" (nascida entre 1945 e 1964) busca respostas para o erotismo, a autossuficiência emocional e as trincas próprias da idade. Paralelamente, sobressaem a progressiva obsolescência mercadológica, o descompasso diante dos avanços tecnológicos e o vazio existencial decorrente do ocaso profissional. Há, ainda, o abismo na comunicação que separa os idosos da geração "Millennials" (1984-1994), familiarizada com os "tablets" e a inteligência artificial como ferramentas cotidianas de aprendizado e entretenimento. Ecoam, enfim, o silêncio da profissão outrora exercida e o distanciamento irremediável das inventividades do amanhã. Toda essa atmosfera evoca o sentimento de que o passado pode ser resgatado no simples cheiro e sabor do bolinho madeleine, imortalizado por Marcel Proust na obra "Em Busca do Tempo Perdido".
O Brasil testemunha uma célere transição demográfica, marcada pelo prolongamento da longevidade de sua população. Esse incremento na sobrevida colide dramaticamente com a anemia das redes de proteção social do Estado, revelando o descompasso entre o viver mais e o viver com dignidade. Paralelamente, a precariedade da infraestrutura das cidades — com ênfase nas metrópoles e centros urbanos do Nordeste — expõe a realidade inexorável: malhas viárias despedaçadas, logradouros intransitáveis e transporte público precário. A escassez de planejamento inclusivo anula a acessibilidade universal, convertendo o meio urbano em um cenário de exclusão que cerceia o direito constitucional à mobilidade e penaliza os cidadãos com limitações funcionais.
Agrava esse panorama a assimetria do arranjo tributário vigente. Os vultosos dispêndios, com assistência médica privada e medicamentos de alto custo, carecem de deduções fiscais proporcionais no Imposto de Renda: o Leão, com suas garras afiadas e rigidez burocrática, passa a onerar os parcos recursos financeiros da velhice.
No cenário pré-eleitoral contemporâneo, as propostas voltadas ao amparo do idoso permanecem em segundo plano nas plataformas presidenciais. Ignora-se que a base para uma longevidade digna e humanizada reside no Artigo 230 da Constituição de 1988 — norma que estabelece a responsabilidade compartilhada entre família, sociedade e Estado na salvaguarda da terceira idade.
Tudo isso parece compor o poema "Retrato", de Cecília Meireles: "Eu não tinha este rosto de hoje/ Assim calmo, assim triste, assim magro./ Nem estes olhos tão vazios... Eu não tinha estas mãos sem força...Eu não tinha este coração /Que nem se mostra/. Eu não dei por esta mudança. / Tão simples, tão certa tão fácil - Em que espelho ficou perdida a minha face?"
Dayse de Vasconcelos Mayer é doutora em ciências jurídico-políticas e ex-docente da Faculdade de Direito de Lisboa.