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O Brasil no tabuleiro do WAR

Quem não jogou o icônico WAR? Mapa colorido, cartas de objetivos e possibilidades de alianças fazem dele uma diversão que não conhece geração.

Por OTÁVIO SANTANA DO RÊGO BARROS Publicado em 05/09/2026 às 0:00 | Atualizado em 08/09/2026 às 10:52

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Vence quem acumula forças, conquista territórios, esquiva-se de adversários, enquanto constrói poder para derrotá-los.

Os princípios empregados no WAR estão no mundo real. A geografia continua a mesma, mas os jogadores mudaram, novas armas surgiram e as regras flutuam ao sabor dos mais poderosos.

Depois da Guerra Fria, acreditamos que a globalização, a interdependência econômica e as instituições multilaterais conduziriam o mundo a uma ordem cooperativa.

Kant parecia avançar sobre Hobbes. Não foi o que aconteceu.

Segundo o Uppsala Conflict Data Program, ocorreram 65 conflitos envolvendo entes estatais em 2025.

A guerra está na Europa. O Oriente Médio permanece conflagrado. Estados Unidos e China disputam a hegemonia mundial. A Rússia certifica que força militar continua instrumento da política. Índia, Turquia, Arábia Saudita e outras potências ampliam suas autonomias.

Chamo esse ambiente de multipolaridade assimétrica. Multipolar porque existem vários centros de poder. Assimétrica porque dispõem de capacidades distintas.

Os instrumentos de poder também mudaram. Já não se valem apenas da pólvora. Estão nos satélites, algoritmos, minerais críticos, computação quântica, inteligência artificial e capacidade industrial.

Poucos países reúnem território, água, alimentos, energia, minerais, biodiversidade, população e um enorme espaço marítimo como o nosso.

Mas isso não significa poder. Recursos são potencialidades. Poder é a capacidade de transformá-los em liberdade de ação. Para tê-la, precisamos pensar de dentro para fora.

No WAR, o jogador primeiro consolida sua posição. Concentra forças, protege territórios e só depois projeta poder. Na geopolítica não é diferente.

Se o Brasil deseja sentar-se à mesa com chance de influenciar o jogo, antes de ambicionar protagonismo global precisa consolidar seu primeiro círculo estratégico: a América do Sul.

Não para dominá-la, mas para construir com vizinhos um espaço de confiança, estabilidade e cooperação.

Os antagonismos regionais e as ambições extrarregionais não respeitam fronteiras nem acordos. Por que nossas respostas deveriam ser isoladas se os problemas afetam a todos?

A receita é ampliar o intercâmbio de informações, exercícios combinados, proteção das fronteiras, entre outras iniciativas.

O movimento seguinte é avançar sobre o Atlântico Sul.

Ali estão rotas comerciais, cabos submarinos, riquezas no leito do mar e nossa ligação com a África, continente igualmente subvalorizado no WAR geopolítico.

Somente então ganha consistência uma projeção mais ampla, a projeção global.

"Comece fazendo o necessário, depois o possível e, de repente, estará fazendo o impossível", ensinava São Francisco de Assis.

Esse pensamento serve de síntese para uma estratégia brasileira. Primeiro, construir poder, o necessário. Depois, projetar influência, o possível. Por fim, conquistar respeito no cenário mundial, o que hoje parece o impossível.

Nesse processo, uma indústria de Defesa independente é indispensável.

Imagine um jogador que precisa pedir emprestadas as peças para realizar suas ações. Pode sobreviver ao jogo, mas dificilmente decidirá sozinho para onde mover seus exércitos.

O Brasil precisa dominar tecnologias das quais não podemos depender integralmente de terceiros. Por exemplo: fabricar munições, desenvolver mísseis, lançar satélites e projetar drones.

Antes de sentar-se à mesa e lançar os dados sobre o tabuleiro, é a sociedade que precisa definir o que deseja proteger, quais são seus interesses e quanto está disposta a investir para preservar autonomia. As Forças Armadas são apenas os instrumentos dessa sociedade.

O Brasil não precisa escolher entre Ocidente e Oriente. Precisa escolher entre dependência e autonomia.

No WAR, quem não possui estratégia acaba participando da estratégia do outro. Na geopolítica também. Caro leitor, abanque-se, uma nova partida já começou.

Otávio Santana do Rego Barros, general de Divisão da Reserva

 

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