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As campanhas nas ruas

Os brasileiros de minha geração ficaram por 20 anos privados do direito do voto - de exercer sua cidadania....................

Por IVANILDO SAMPAIO Publicado em 23/08/2026 às 0:00 | Atualizado em 27/08/2026 às 10:05

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As campanhas politicas começaram. As promessas e aspirações dos inúmeros candidatos, dos mais diversos partidos, do centro, da direita, da esquerda ou de corrente nenhuma, invadem as ruas e a privacidade de cada lar, assumindo compromissos que jamais serão cumpridos, alguns, porque desde cedo os candidatos sabem que não se elegerão; outros porque, mesmo eleitos, sabiam antecipadamente que as desculpas posteriores serão mais criativas do que as narrativas anteriores.

Apesar disso, é sempre bom ver as campanhas políticas pelas ruas. Os brasileiros de minha geração ficaram por 20 anos privados do direito do voto - de exercer sua cidadania, escolhendo, pelo voto direto, aqueles que deveriam representa-los, desde as Câmaras Municipais, lá embaixo, até o degrau mais alto, na Presidência da República.

Foram anos difíceis. Como repórter, única atividade que exerci na vida por mais de meio século, morando e trabalhando no Rio de Janeiro, vi e acompanhei o silêncio covarde de muitos políticos, a adesão proveitosa de tantos outros, a resistência corajosa de alguns poucos, que perderam mandatos e a própria vida - mas nunca negociaram a dignidade. Orgulhava-me, algumas vezes, a resistência corajosa de alguns poucos parlamentares pernambucanos, enquanto me envergonhava o servilismo e a covardia de tantos outros. No meio, estavam os aproveitadores, que tiraram proveito de ambos os lados.

Anos mais tarde, esses ampliariam os próprios currículos, falando de posições que nunca exerceram, de cargos que jamais ocuparam, de amizades que não existiram e reconstruindo diálogos travados com personagens já falecidos, que não podiam desmentir suas histórias fantasiosas. Naqueles anos de chumbo, o Rio de Janeiro editava os melhores e mais importantes veículos de Imprensa do País, a começar pelo Jornal do Brasil, de propriedade da condessa Pereira Carneiro e uma equipe de profissionais de extraordinário talento, chefiada por Alberto Dines e Carlos Lemos.

Em franca oposição aos generais da ditatura, estava o Correio da Manhã, que, asfixiado pelas "classes produtoras" perdeu todos os seus anunciantes e não resistiu. Parou as rotativas. E havia ainda "O Jornal" e o "Jornal do Commercio"; da cadeia dos "Associados"; "O Globo", de Roberto Marinho, que era um vespertino e se preparava para se tornar "matutino"; "Ultima Hora", que tentava sobreviver depois do Golpe e de novos controladores; dois jornais de Chagas Freitas, que se tornaria governador do Estado - e outros mais, de menor relevância. Pois bem, não havia uma "cobertura política" na Imprensa carioca depois do golpe militar, e um silêncio ainda maior na mídia em geral, após o AI-5.

A "redemocratização", depois de duas décadas de ditadura, trouxe de volta as campanhas eleitorais. Com seus acertos e seus desacertos. Suas promessas mentirosas e seus candidatos de currículos algumas vezes duvidosos. Mas isso é bom. Fortalece a democracia. Entrega ao povo o direito da escolha. Assim, nesse chão perigoso caminha a população brasileira, vivendo uma polarização jamais vista no universo político do nosso país, colocando, algumas vezes, irmão contra irmão, pai contra filho, amizades antigas sendo desfeitas para todos os séculos sem fim.

Talvez estejamos vivendo uma guerra onde não haverá vencidos nem vencedores, o que talvez seja o inicio de uma caminhada para a construção de uma nova sociedade, mais igualitária e mais justa, para nossos filhos e netos, pois aqueles de minha geração, cansados e descrentes como eu, tendo como opções de Governo Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, começam a deixar para trás todas as suas esperanças.

Ivanildo Sampaio é jornalista

 

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