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A Força dos Juros

Quando o governo gasta mais do que arrecada, ele se endivida para cobrir suas despesas. Quem financia o governo neste processo são pessoas

Por JORGE JATOBÁ Publicado em 18/08/2026 às 6:00

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A taxa de juros é um dos principias preços da economia, o custo do dinheiro. Por esta e outras razões é também a principal arma de que dispõe o Banco Central para combater a inflação. Quando, por pressões de demanda como aquela que advém do elevado e persistente aumento dos gastos públicos, a inflação se eleva, o Banco Central sobe a taxa básica de juros (SELIC), o que restringe o consumo das famílias e os investimentos das empresas. Isso desacelera o ritmo de crescimento da economia, como está ocorrendo agora, e eventualmente pode levá-la a uma recessão, como observou-se em 2015 e 2016.

Quando o governo gasta mais do que arrecada, ele se endivida para cobrir suas despesas. Quem financia o governo neste processo são pessoas físicas e jurídicas, nacionais e estrangeiras, atores econômicos, que compram os títulos da dívida pública emitidos pelo Tesouro Nacional. Eles podem ser pré-fixados ou pós-fixados e, indexados ou não, à inflação.

Com o crescimento do endividamento, medido pela relação Dívida/PIB, aumenta o risco de ela não ser honrada. Com o aumento do risco decorrente do endividamento crescente, o mercado exige juros mais altos. A curva de juros futuros torna-se, assim, crescente. O poder dos juros sobre o endividamento é substancial. Não se deve subestimar o efeito exponencial do crescimento de juros sobre juros. É a força decorrente de uma taxa geométrica de crescimento. Os números impressionam.

A Dívida Pública Federal subiu 2,61%, em junho de 2026, em relação a maio, alcançando o valor de R$ 9,268 trilhões, cerca de 81,9% do PIB. A previsão é que feche, este ano, entre R$ 9,7 e R$ 10,3 trilhões, cerca de 83,5% do PIB, pressionada principalmente pelo aumento dos juros. O custo médio do estoque da dívida está em torno de 12,2% ao ano e o valor das novas emissões chegou a 14,08% em abril. Neste mesmo mês, as emissões de títulos da dívida pública federal alcançaram R$ 201 bilhões, o maior valor em 12 meses.

Com relação ao perfil da dívida o prazo médio de vencimento é de um pouco mais de 4 anos (4,12) e a reserva de liquidez está estimada em cerca de R$ 1,1 trilhão. Estes são números preocupantes, mas ainda não desesperadores. De qualquer forma com bases nestes parâmetros e com uma politica fiscal expansionista o JP Morgan baixou o rating do Brasil para neutro numa sinalização relevante de aumento do risco Brasil.

O déficit primário que, em 2025, foi de R$ 58,69 bilhões (0,46% do PIB), é medido pela diferença entre receitas e despesas não financeiras, mas este déficit quando se soma a conta dos juros evidencia um déficit total, nominal, de cerca de 8,24% % do PIB, no valor de R$ 1,06 trilhões. Portanto, quase a totalidade do déficit total, nominal, do governo se deve , e de forma crescente, à expansão dos juros. Em dezembro de 2025, só os juros nominais somaram R$ 121,8 bilhões por causa da elevada Selic e do maior estoque da dívida. No orçamento da União os juros representam 28% da previsão de gastos, um número assustador para um país com tantos desafios para acelerar seu processo de desenvolvimento econômico e social e escapar da armadilha dos países de renda média. Sobra relativamente pouco para educação, saúde infraestrutura, etc., ainda mais com o Congresso fragmentando recursos de forma ineficiente pela via das emendas parlamentares.

A conta dos juros está também no numerador da relação Dívida Bruta/PIB. Por conta da força dos encargos financeiros o numerador vem crescendo mais do que o denominador (PIB), elevando essa relação ao longo do tempo. A diferença entre o crescimento dos juros e do PIB foi de 3,08%, em 2025. Para estabilizar essa relação seria necessário um superávit primário de 1,94% do PIB, em 2025, mas o que tem se observado é um aumento do déficit primário. Com este resultado negativo e a expansão acelerada dos juros nominais, a previsão é que essa relação, para este e os próximos anos, se nada for feito, seja de persistente e preocupante elevação. Uma verdadeira bola de neve.

A estabilidade fiscal não é um fim em si mesma, nem é uma questão ideológica. É precondição para o desenvolvimento sustentável do país. O equilíbrio das contas públicas continua sendo o principal problema macroeconômico brasileiro. Neste ano eleitoral precisamos estar atentos à viabilidade e a seriedade das propostas dos candidatos para enfrentar esse desafio.

Jorge Jatobá, Doutor em Economia, Professor Titular da UFPE, Ex-Secretário da Fazenda de Pernambuco, Membro do Conselho de Honra do LIDE-PE e do Comitê de Business Affairs da AMCHAM, Sócio da CEPLAN- Consultoria Econômica e Planejamento

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