Os sem programa
Houve um tempo em que a elaboração de um Programa de Governo era um dos momentos mais importantes das campanhas eleitorais em Pernambuco.
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Antes do início oficial da disputa, partidos e candidatos reuniam sindicatos, universidades, empresários, movimentos sociais e especialistas para discutir prioridades da futura administração. Hoje, esse rito praticamente desapareceu. Foi substituído por algoritmos, vídeos curtos e fotografias cuidadosamente produzidas para as redes sociais.
Criavam-se grupos de trabalho temáticos e por categorias profissionais que sempre mereciam a cobertura da imprensa e a gravação de vídeos para a propaganda eleitoral. O final desse processo geralmente culminava com uma grande apresentação pública de todas as propostas que haviam sido discutidas, ocasião em que havia o pronunciamento do candidato majoritário sobre os seus compromissos com aquelas propostas.
Um Programa de Governo nunca foi apenas um documento administrativo. Era um instrumento de participação política. Ao reunir diferentes segmentos da sociedade para definir prioridades, criava compromissos públicos e fortalecia a legitimidade do futuro governo. Na presente campanha, o envolvimento militante desapareceu quase completamente, sendo impossível distinguir como se pretende definir projetos e construir hegemonias claramente marcadas por expectativas de mudanças necessárias que garantam reformas substanciais para a continuidade da legitimidade democrática.
Nesse sentido, é importante ter presente que uma democracia representativa depende substancialmente de eleições, mas também depende do envolvimento coletivo da sociedade em campanhas construídas com debates públicos que traduzam os objetivos reais das candidaturas propostas. Uma campanha feita apenas por especialistas em marketing pode vencer eleições; porém, dificilmente consegue produzir governos capazes de diminuir o desalento político que hoje marca parte significativa do eleitorado.
Tem-se, então, que as consequências das campanhas sem participação da sociedade reduzem a transparência dos compromissos dos candidatos e produzem o crescimento do desalento político; ao contrário, há o fortalecimento da democracia quando se consegue transformar as campanhas eleitorais em momentos de construção de programas de amplo conhecimento público. Essa era uma característica das transições democráticas bem-sucedidas e, durante muitos anos, também esteve presente na tradição política pernambucana.
José Arlindo Soares, sociólogo, presidente do Centro de Estudos Josué de Castro