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Precisamos de um choque de integridade

Eu escolhi, há muito tempo, ficar do lado da coerência, suportando todos os custos inerentes às minhas atitudes.......................................

Por MARCELO SILVA Publicado em 21/07/2026 às 13:44

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Tenho verdadeiro pavor à hipocrisia e fervorosa devoção à integridade. É um sentimento duplo que carrego comigo há décadas, vivido em reuniões de conselhos de administração, em mesas de negociação, em encontros a portas fechadas para a tomada de decisões difíceis. Porque é justamente nessas horas, a salvo dos olhares externos, que se revela o caráter de um gestor.
Com o tempo e alguns dissabores, descobri um padrão de conduta: nenhum hipócrita é íntegro. Confira você mesmo: esses dois traços de personalidade jamais se combinam na mesma pessoa. São como água e óleo. Não se misturam.
Gosto de buscar a etimologia das palavras para compreender melhor os conceitos. “Integridade” vem do latim integritas, designando aquilo que está inteiro, intacto, sem rachaduras. Por conseguinte, a pessoa íntegra não tem fendas na estrutura do caráter. O que ela pensa e diz está sempre em perfeita consonância com o que faz.
“Hipócrita”, por sua vez, vem do grego hypokrités, palavra que designava um ator, aquele que, atrás de uma máscara, representava um personagem. Por extensão, o hipócrita é alguém partido em dois. Seu rosto real permanece oculto. O outro, teatral, está exposto para a plateia.
Mas é preciso desfazer um mal-entendido. A pessoa íntegra não é necessariamente infalível, perfeita ou santa. Todos nós cometemos deslizes. Admito que errei muitas vezes ao longo de minha trajetória. E continuarei errando para poder me corrigir e evoluir.
E é neste ponto que reside a diferença. A pessoa íntegra falha e assume. Reconhece, repara, aprimora e segue em frente, de cabeça erguida. O hipócrita, ao contrário, erra e esconde, terceiriza a responsabilidade, maquia o resultado, constrói uma narrativa com desculpas convenientes.
No fundo, viver com integridade exige que a pessoa seja a mesma em qualquer ambiente, diante do poderoso e do humilde, na reunião do conselho e na resenha com o porteiro, no sucesso e no fracasso. Trata-se de manter a coerência sob pressão.
Para manter-se assim, é preciso da participação ativa do coração, porque a razão não sustenta sozinha uma vida inteira de honestidade. A convicção depende do amor ao bem e à verdade, de acreditar com paixão que princípios são inegociáveis.
Já que citei os gregos, é preciso lembrar da famosa frase que Platão atribui a Sócrates, em sua crítica a uma Atenas que valorizava a aparência, o prestígio e o sucesso, sem cultivar devidamente as reais virtudes do espírito:
- Cuidas de riqueza, reputação e honras, mas não cuidas da verdade nem da melhoria da alma.
O custo da hipocrisia para um país
Trago essa reflexão para o terreno da vida pública. Olho para o Brasil e vejo uma nação de gente trabalhadora, criativa, generosa, capaz de feitos extraordinários. Mas percebo também uma cultura que, em muitas dimensões, aprendeu a conviver com a hipocrisia como conduta natural.
É o discurso incompatível com a prática. É a regra que vale para João e não para José. É a indignação seletiva que se acende e se apaga conforme a conveniência. É o “jeitinho” ao qual recorrem os paladinos da moral de todas as correntes ideológicas.
E essa incoerência, mesmo invisível, tem um alto custo. Pois a hipocrisia corrói a confiança. E, sem ela, nada funciona a contento. Há prejuízo para a família, para a empresa, para a comunidade, para o país. As instituições simplesmente perdem a autoridade. Os contratos passam a valer menos que a palavra empenhada. E o cidadão probo, aquele que paga suas contas e honra seus compromissos, passa a sentir-se um otário no jogo das cartas marcadas.
Um país não quebra apenas por crises fiscais ou choques externos. Ele se enfraquece, silenciosamente, quando a coerência deixa de ser valorizada e a esperteza passa a ser admirada.
Falamos tanto em choque de gestão, em choque de produtividade, em choque de inovação. Tudo muito necessário. O choque mais urgente e necessário, entretanto, é o de integridade. Não existe boa governança sem integridade, o cimento resistente do caráter que segura a casa em pé quando o vento aperta.
Um choque de integridade, no entanto, não pode ser imposto por decreto. Ele precisa nascer de cada um de nós. Começa no líder que recusa o atalho, mesmo quando ninguém percebe o delito. Começa na mãe e no pai que ensinam pelo exemplo, e não apenas pelo sermão. Começa no conselheiro empresarial que tem a ousadia de discordar, mesmo quando todos preferem a anuência silenciosa. Começa na pessoa que cumpre o combinado quando é fácil e, principalmente, quando é difícil.
A atitude cotidiana
Penso que a integridade não é um troféu que se conquista e se exibe na estante da sala. É um desafio decisório que se renova todos os dias, em questões grandes e pequenas, muitas vezes longe dos holofotes. Eu escolhi, há muito tempo, ficar do lado da coerência, suportando todos os custos inerentes às minhas atitudes. E sigo convicto de que esse é o único caminho que constrói bens duráveis intangíveis, seja nas empresas, nas famílias, nas instituições e neste país que tanto amo.
Que tenhamos, todos, o pavor saudável da hipocrisia. E, igualmente, a coragem diária para perseverar na integridade. Encerro lembrando a mais dura advertência que se fez contra a hipocrisia, há mais de dois mil anos, e que permanece atual, como se tivesse sido pronunciada ontem:
- Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora parecem belos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda imundície.

Marcelo Silva, consultor de empresas

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