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Corações que aprenderam a crescer

Atualmente existem mais adultos do que crianças vivendo com cardiopatias congênitas....................................................

Por Antônio Carlos de Souz Publicado em 21/07/2026 às 0:00 | Atualizado em 21/07/2026 às 8:53

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Durante muito tempo, as cardiopatias congênitas foram consideradas doenças da infância. A imagem mais comum era a de crianças submetidas a cirurgias complexas, acompanhadas por cardiopediatras e que, muitas vezes, não alcançavam a vida adulta. Hoje, porém, a medicina escreve uma história diferente.

Graças aos avanços da cardiologia pediátrica, da cirurgia cardiovascular, da terapia intensiva neonatal e dos métodos diagnósticos, mais de 90% das crianças nascidas com cardiopatias congênitas sobrevivem até a idade adulta. Como consequência desse extraordinário sucesso, surgiu uma nova população de pacientes: os adultos com cardiopatia congênita.

Poucas pessoas sabem, mas atualmente existem mais adultos do que crianças vivendo com cardiopatias congênitas em diversos países. Esse fenômeno, já consolidado em nações desenvolvidas, cresce progressivamente também no Brasil. As diretrizes mais recentes das sociedades internacionais reconhecem que esses pacientes constituem uma população em expansão e que necessita de acompanhamento especializado ao longo de toda a vida.

Trata-se de uma das maiores vitórias da medicina moderna. Crianças que, há poucas décadas, tinham expectativa de vida limitada, hoje estudam, trabalham, constituem famílias, praticam atividades físicas e chegam à terceira idade. Entretanto, o sucesso da sobrevivência trouxe novos desafios.

A maioria desses pacientes não pode ser considerada completamente curada. Em muitos casos, a cardiopatia foi corrigida ou paliada, mas continua exigindo vigilância permanente. Arritmias, insuficiência cardíaca, hipertensão pulmonar, complicações valvares e necessidade de novas intervenções fazem parte da realidade de muitos deles.

Outro problema frequente é a falsa sensação de cura. Não raramente, pacientes operados na infância afastam-se do acompanhamento médico por acreditarem que o problema foi definitivamente resolvido. Quando retornam ao cardiologista, anos depois, já apresentam complicações que poderiam ter sido prevenidas ou diagnosticadas precocemente.

Por isso, as diretrizes atuais reforçam a importância do seguimento contínuo em centros especializados. Afinal, um adulto com cardiopatia congênita não é simplesmente um paciente pediátrico que envelheceu, nem um cardiopata comum. Trata-se de uma população com características anatômicas, fisiológicas e clínicas próprias, que exigem conhecimento específico e atuação multidisciplinar.

A sociedade também precisa conhecer essa realidade. Muitos convivem diariamente com profissionais, professores, empresários, atletas ou trabalhadores que nasceram com uma cardiopatia congênita e superaram desafios extraordinários graças aos avanços da ciência. São exemplos de resiliência humana e do poder transformador do conhecimento médico.

Essa nova realidade impõe igualmente responsabilidades aos sistemas de saúde. É necessário ampliar o acesso aos ambulatórios especializados, formar profissionais capacitados e garantir uma transição adequada entre a cardiologia pediátrica e a cardiologia do adulto. O sucesso obtido na infância não pode ser perdido por falta de acompanhamento na vida adulta.

A história dos adultos com cardiopatia congênita demonstra que o progresso da medicina não se mede apenas por tecnologias ou procedimentos inovadores. Mede-se, sobretudo, pela capacidade de oferecer mais anos de vida, mais qualidade de vida e mais oportunidades para que sonhos sejam realizados.

Como ensinava Sir William Osler, "o bom médico trata a doença; o grande médico trata o paciente que tem a doença". Os adultos com cardiopatia congênita representam uma das mais belas expressões dessa verdade. São a prova de que a ciência pode transformar destinos e de que cada coração que aprende a crescer carrega consigo uma extraordinária celebração da vida.

Antônio Carlos Sobral Sousa, professor titular da UFS e membro das Academias Sergipanas de Medicina (atual Presidente), de Letras e de Educação

 

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