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O Shakespeare bíblico

Encontrar-me hoje em Strattford-upon-Avon, cidade onde William Shakespeare nasceu e viveu, é confirmá-la como santuário literário do grande dramaturgo

Por Jones Figueirêdo Alves Publicado em 06/07/2026 às 0:00 | Atualizado em 07/07/2026 às 15:26

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Encontrar-me hoje em Strattford-upon-Avon, cidade onde William Shakespeare nasceu e viveu, é confirmá-la como o santuário literário do grande dramaturgo, onde aqui encenou inicialmente as suas peças. E conviver com a atmosfera da Inglaterra elisabetana da época é compreender o quanto a Bíblia exerceu uma profunda influência sobre a sua obra.

Embora Shakespeare raramente reproduza textos bíblicos literalmente, ele absorveu temas, imagens, metáforas, dilemas morais e estruturas narrativas que permeiam os seus dramas e tragédias. A leitura da Bíblia fazia parte da formação cultural comum, tanto que a "Geneva Bible", de 1560, era amplamente difundida, e Shakespeare estava familiarizado com ela. Seu público também reconhecia facilmente alusões bíblicas inseridas nos diálogos.

Exemplo da influência bíblica está em "O Mercador de Veneza". O célebre discurso de Pórcia sobre a misericórdia reproduz uma visão profundamente evangélica: "A qualidade da misericórdia não é forçada." A ideia de a misericórdia ser superior ao rigor da lei aproxima-se diretamente do ensinamento cristão quando a peça desenvolve dramaticamente a tensão entre justiça retributiva e perdão, recorrente nos Evangelhos.

Um dos temas centrais da Bíblia é a queda adâmica, a inclinação do homem ao erro e as consequências do pecado. Esse tema aparece em praticamente todas as grandes tragédias de Shakespeare. Em Macbeth, a ambição conduz o protagonista à ruína, numa trajetória semelhante à dos personagens bíblicos que sucumbem à tentação. Macbeth lembra a narrativa de Adão, a sedução do poder produzindo a perda da inocência e a expulsão da paz.

Muitos confrontos textuais sinalizam a influência bíblica, como no Ato V, 23: "Apaga, apaga lâmpada efêmera", quando em Jó 18,6, está referido: "(...) e a lâmpada que está sobre ele apagará". E logo a seguir, no Ato V, 24: "A vida não passa de uma sombra ambulante", repetindo o Salmos 39,7: "Pois o homem passa como uma sombra vã".

Em Hamlet, o príncipe dinamarquês vive o drama do homem confrontado com o mal, a corrupção e a morte, questões que ecoam os livros sapienciais bíblicos. Ele exclama para Guildenstern: "O rei é uma coisa (...) uma coisa de nada", reiterando o Salmos 144,4: "O homem é uma coisa de nada". Hamlet ao expressar "que o amor que os une floresça como a palmeira" (Ato V, II, 40), invoca a providência divina contida no Salmos 92,12: "O justo florescerá como a palmeira".

Na tragédia "Júlio Cesar", colacionam-se outras influências bíblicas, observada no Ato IV, III, 85 a fala de Bruto a dizer que "o amigo deve suportar as fraquezas de seus amigos", sob a evidente inspiração da Epístola de São Paulo aos Romanos: "Nós, que somos mais fortes, devemos suportar as fraquezas dos que são fracos" (Rm. 15, 1).

Vejamos a tragédia épica "Antônio e Cleópatra", ocorrendo reminiscências bíblicas, quando tratando da fragilidade dos reinos, assim como a do barro, Antônio afirma: "Reinos são de barro" (Ato I. I, 35), repetindo Daniel 2, 42. Antes, ele diz: "Então precisarás descobrir um novo céu e uma nova terra" (Ato I, I, 17), tudo conforme a 2ª Epístola de São Pedro 3,23: "Porém esperamos, segundo as suas promessas, um novo céu e uma nova terra".

O Rei Lear ao encontrar mendigos e desvalidos, clamou: "Ó pobres nus e miseráveis..." (Ato III, IV). Recordemos Lucas 6:20: "Bem-aventurados os pobres."

Shakespeare como intérprete da condição humana, mais do que reproduzir versículos, construiu personagens bíblicos para o palco do seu teatro. Colocados sob conflitos humanos, eles vivem, sofrem e encenam os dilemas morais que os Evangelhos apresentam como caminho para a redenção do homem. Percorrer a narrativa bíblica é o percurso para melhor assimilar a obra de William Shakespeare (1564-1616), tal como aprendo a caminhar à margem esquerda do Rio Avon, para aqui encontrá-lo atemporal e eterno.

*Jones Figueirêdo Alves é Desembargador Emérito do TJPE. Advogado e parecerista.

 

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