A Bailarina de Auschwitz
Ao deixar Auschwitz para o campo de Gnskirchen, a bailarina enfrentou a "marcha da morte": 43 km, numa caminhada sem água, alimento e descanso.
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“Dance, dance, senão estaremos perdidos”. A frase, embora atribuída à coreógrafa e bailarina alemã Pina Bausch, foi dita por uma menininha grega com o significado de refúgio, processo de cura e de alcance da liberdade. "Estar perdido" traduz a ideia de que não devemos fraquejar diante do caos, vazio e desesperança.
Essas afirmações são preparatórias à análise da obra “A Bailarina de Auschwitz”, escrita por Edith Eva Eger, falecida no dia 27 de abril deste ano, aos 98 anos. Focam o período da “decisão final”, expressão aplicada ao genocídio judeu.
O livro é o relato de um episódio vivido no campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia, quando Josef Mengele, o “anjo da morte”, exigiu que Edith dançasse para ele ao som da valsa “Blue Danube” tocada por uma orquestra de judeus. Edith dançou com os olhos cerrados. A imaginação a transportou para a Casa de Ópera de Budapeste. Sentiu-se, naquele momento.inteiramente liberta. A apresentação lhe rendeu a alcunha de “a bailarina” e um pão que ela compartilhou com a irmã e com outros aprisionados.
Ao deixar Auschwitz para o campo de Gnskirchen, a bailarina enfrentou a “marcha da morte”: 43 km, numa caminhada sem água, alimento e descanso. O capitão norte-americano J.D. Pletchar gravou o instante da soltura dos judeus, em maio de 1945: ...os esqueletos caminhavam em nossa direção. Estavam desvairados pela fome e sede. Os que não conseguiam andar se arrastavam como répteis. Edith não participou desse momento. Estava numa montoeira de cadáveres. Um soldado percebeu que a mão dela se mexia e chamou um médico. Tinha uma fratura na coluna, padecia de febre tifoide, pneumonia, pleurisia e pesava 32 quilos.
Durante o processo de convalescença, a bailarina conheceu Albert Bela Eger, combatente da resistência. Casaram-se em novembro de 1946 e a primeira filha do casal nasceu no ano seguinte. A família logo imigrou para os Estados Unidos em 1949.
Vinte anos depois, após criar os filhos, Edith sentiu que era seu momento. Voltou à universidade para graduação em psicologia e, na sequência, cursou o mestrado e o doutorado. Estava na faixa dos cinquenta anos. Nesse período, conheceu o Dr. Viktor Frankl, neuropsiquiatra austríaco. Foi ele o grande inspirador das obras que ela escreveu: “O que aprendi em Auschwitz”; “A bailarina de Auschwitz”; “Doze lições para mudar a sua vida”. Dessas obras – rotuladas pela maioria dos críticos de livros de autoajuda – é possível extrair as frases: “A liberdade é uma escolha e ser vítima, igualmente”; "Gosto de olhar para essa cicatriz que eu continuamente afago”; “Não há perdão sem cólera; “O tempo não cura”. A cura constitui o resultado daquilo que nós fazemos com o tempo”.
As frases citadas lembram o poema escrito por Elizabeth Bishop “A arte de perder” comunicando que a dança e a escrita são tentativas de não apagamento da memória e de expurgo da dor. Edith vai além ao transmitir que abrir mão do ódio significa a superação das nossas feridas e o apagamento das nossas cicatrizes.
A Segunda Guerra prometeu, com a Carta das Nações Unidas, o respeito aos direitos humanos. Previa-se, com a assinatura da Carta – e mais tarde com a criação da ONU (1945), o alcance de um mundo apaziguado. Todavia, as ideologias de ódio não desapareceram (caso do genocídio na Bósnia), gerando o sentimento de frustração ou desilusão histórica. Abrolha, rapidamente, a convicção de que a derrocada do nazismo não extirpou as raízes do extremismo e não gerou o avanço civilizatório que a humanidade desejava. Para muitos, a reconstrução geopolítica global e os sistemas econômicos subsequentes falharam na solução das desigualdades estruturais gerando “o vazio e o medo”, um dos debates mais ricos da filosofia e da psicanálise.
Os EUA, protagonistas na Segunda Guerra, projetam, hoje, seu poder por meio de conflitos diretos e guerras de hegemonia em locais como a América Latina e o Oriente Médio (caso da guerra contra o Irã). A humanidade, nesse cenário, continua indefesa. Alguns países democráticos chegaram à exaustão de quem foi movido ao limite. Poucos estão percebendo que chegou a hora de acordar e romper a mentalidade do silêncio. Afinal, ainda ecoa forte o grito de Edith, a bailarina de Auschwitz, não devemos fraquejar diante do caos e da desesperança.
Dayse de Vasconcelos Mayer é doutora em ciências jurídico-políticas.