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Dom Helder e o general

Mais histórias do passado. Já começo lembrando que Dom Hélder chegou, em 12/04/1964, para ser arcebispo de Olinda e Recife............

Por JOSÉ PAULO CAVALCANTI FILHOjp@jpc.com.br Publicado em 12/06/2026 às 0:00 | Atualizado em 12/06/2026 às 15:30

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... E logo criou, por aqui, o Banco da Providência, reprodução de experiência no Rio. Para ajudá-lo, convidou as assistentes sociais Ana Maria Moraes e Lilia Guaraná, só que não tinha dinheiro para contratá-las. Dom Lamartine, seu anjo da guarda, encontrou-se casualmente com Paulo Guerra

- Dr. Paulo, o Arcebispo veria com muitos bons olhos a contratação dessas duas funcionárias, pelo governo, para ficar à disposição do Banco.

Guerra (PSD) foi eleito vice de Miguel Arraes (PST), em 1962, até quando a Redentora prendeu Arraes em Fernando de Noronha.

O general Justino Alves Bastos, comandante do IV Exército, em seu livro de memórias escreveu

Arraes socialmente confinado em seu palácio, já quase impossibilitado de nos trazer perturbações... O instinto herdado de meu pai, um caçador de onças, fez-me ver nele, desde a primeira hora, um inimigo... Declarei-lhe guerra desde que o conheci. E isolei-o, afinal, na solidão de um penhasco perdido no meio do Atlântico (a ilha de Fernando de Noronha).

Guerra, governador, desejava muito atender o Dom. Por ver, ali, uma chance de alargar suas relações com as oposições. Mas sabia da dificuldade representada pelo tal Justino, à época todo-poderoso em Pernambuco. Que mandava na própria sombra.

O amigo Carlos Moreira, advogado e poeta, estava batendo ponto no Bar do Valdemar (Recife antigo, toda gente sabe onde é) quando ele entrou para espanto dos presentes. Testemunha do fato foi o jornalista Aldo Camerino Paes Barreto.

Moreira pediu um papel a Aluízio Falcão e deixou registrado: " Cidadão guarda teu bolso/ Comerciante a vitrina/ Cachorro esconde o osso/ Garçom feche a cantina./ Mas se tens o que perder/ E ainda te resta tino/ Bota as pernas pra correr:/ Que está chegando o Justino!"

Dia seguinte, Guerra o foi procurar.

- Dom Helder está pedindo que eu contrate 20 assistentes sociais, general. Mas essa gente eu trato no pau e não vou contratar ninguém.

- Muito bem, governador.

Conversaram a manhã toda. Já indo embora, e como quem não queria nada, virou-se para ele

- Sabe o que estou pensando?, general. Que esse comunista sem-vergonha fez o pedido só prá gente negar e ele se dizer perseguido. O que o senhor acha de contratar duas, em vez das 20? Ele não iria poder falar em perseguição, afinal contratamos essas duas. Mas é o senhor quem manda.

- Grande ideia, governador, pode contratar.

No fim da tarde, um magote de meganhas veio reclamar. E o general, nos altos de sua vaidade,

- Fui eu que mandei.

Saudades de um tempo em que política, tão diferente do jogo bruto de hoje, ainda se fazia com engenho e arte.

José Paulo Cavalcanti Filho, advogado

 

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