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UFPE: sobre uma honrosa Comissão

A lista dos crimes cometidos é maior do que o próprio Código Penal!.... "O Senhor participava das torturas?" "Não. Eu era só matador. Matador!

Por FLÁVIO BRAYNER Publicado em 07/04/2026 às 0:00 | Atualizado em 07/04/2026 às 10:18

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Foi isso que respondeu Cláudio Guerra (autor de "Memórias de uma guerra suja") , matador a serviço da repressão brasileira na ditadura, quando inquirido pela Comissão da Verdade, tal como relatou a professora Socorro Ferraz na solenidade organizada pela UFPE para a apresentação dos resultados da "COMISSÃO MEMÓRIA, VERDADE E REPARAÇÃO DA UFPE", no dia 31 de Março passado na seda da Reitoria. Até agora as pesquisas apontam 649 pessoas ligadas à UFPE, vítimas de expulsão, perseguição política, cassação, banimento, exílio, prisão, tortura, morte e "desaparecimento". A lista dos crimes cometidos é maior do que o próprio Código Penal Brasileiro!

Continua sendo doloroso, mais de 50 anos depois que nossos "desaparecidos" se foram, em plena juventude, ouvir os depoimentos de Cajá - presente à solenidade- ou do Professor Bruno Kawai (coordenador da Comissão): não são apenas depoimentos constrangedores a qualquer sensibilidade humana, mas se colocam quase no limite da imaginação perversa.

O excepcional trabalho daquela Comissão da UFPE, envolvendo diversas áreas (inclusive a do Jornalismo com Paula Reis e Yvana Fachine), metodologicamente bastante complicado - até porque já se passaram muitos anos e durante as investigações da Comissão da Verdade Hélder Câmara, os militares se recusaram a abrir os arquivos que os comprometiam! É aqui onde o "desaparecimento" cumpre sua função "jurídica": não há processo-crime sem um corpo de delito (cadáver).

Gostaria de lembrar, aqui, um desses casos escabrosos que tomei conhecimento através do livro de Paulo Cavalcanti ("O caso eu conto como o caso foi"), e que nunca saiu de minha memória até porque eu conhecia e frequentava a casa da vítima, ainda criança, com minha irmã Yara Brayner: a professora e pesquisadora Naíde Teodósio. Ela fora exposta nua, numa sala da UFPE, como "modelo", diante de uma plateia que estava sendo formada para torturar, sob a orientação "técnica" de ninguém menos do que Dan Mitrioni (1920-1970), contratado pela USAID para treinar as polícias do Brasil com os chamados "Manuais KUBARK" ("tortura eficaz é ciência", dizia o General Massu), desenvolvidos pelos franceses durante a Guerra da Argélia. Sim, os franceses, pais dos Direitos Humanos e da educação republicana!

O mais surpreendente, naquela solenidade na UFPE, foi ouvir nos relatos, os nomes de alguns de meus professores, envolvidos ou comprometidos com atos criminosos praticados pela ditadura no meio universitário: um intelectual do porte internacional de um José Antônio Gonsalves de Mello se prestando a fazer os discursos de louvor ao golpe de 64 nas solenidades de aniversário, a convite das Forças Armadas; um Paulo Maciel dirigindo o escritório do SNI na UFPE (sim, havia uma sala reservada na Reitoria, para a denúncia institucionalizada); um Armando Samico, um Potiguar Matos (único reitor civil da UNICAP, nomeado pelos militares!).

Todo estado repressor tem na Universidade um alvo privilegiado de perseguição e repressão porque o que ocorre ali é algo que nenhum regime totalitário pode aceitar; o PENSAR autônomo. E isso precisa de um coadjuvante estratégico e instrumental: o MEDO. Mas, do que temos, psiquicamente falando, medo, um medo explorável pelas tiranias? Edmund Burke usou o termo "fear" para definir a relação entre realidade e ficção, ou melhor: o fim dessa distinção, quando o poder manipula o real produzindo o medo do isolamento, do Outro, da desagregação. Para isso é preciso produzir um OUTRO (comunista, judeu, subversivo...) dotados de uma incrível capacidade de produzir cizânia e dividir o social, fabricando, ao mesmo tempo, passados míticos e fantasiosos quando vivíamos sob a bênção da união (família, pátria, raça pura...). Fica claro, aliás, como lembrou Socorro Ferraz naquele momento, que a História não é mestra da vida, como pretendia Heródoto: não há lições a serem retiradas dela, ela não é um compêndio moral. É apenas um vasto campo de disputa sobre o que dizemos do passado e por quais razões dizemos. E essas 'razões' nunca são completamente transparentes (ideologia). A Universidade, mais do que um museu, arquivo ou repositório memorialístico é o lugar onde o passado é questionado, criticado, discutido e reavaliado.

A nossa Universidade, aliás, nunca se livrou de seus ranços autoritários e remanescentes da ditadura: sistema de Departamentos, de créditos (isolando os estudantes depois de 68); a haussmanização do campus (retirando as faculdades do nosso "Quartier Latin", a Boa Vista); mandarinatos ideológicos, hierarquias simbólicas, ausência de democracia ampla nos órgãos de decisão.

Que fique claro: o fascismo não é um evento que surpreendeu a "civilização", bem no coração de uma "Europa como projeto espiritual" (Lessing), chocando as consciências humanistas: ele é um fenômeno perfeitamente possível e reeditável, em níveis cada vez mais sofisticados, e a partir da própria democracia, em sociedades de massa, isolamento individualista, meios de comunicação capilares, subjetividades temerosas, ressentimentos sociais, e fantasiando um OUTRO ameaçador. Basta apenas a aparição de um... "Führer"! Todas essas condições já estão reunidas em nossa época.

Resta, não é Socorro, que foram intelectuais universitários de formação "humanista", altamente educados na cultura letrada que denunciaram seus próprios alunos, alguns deles assassinados e apenas residentes, hoje, nas nossas frágeis memórias, que aquela Comissão tenta preservar. Honrosamente.

(Para Socorro Ferraz)

Flávio Brayner, professor Emérito da UFPE

 

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