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O "Legado Adeodato", ofício de inquietar

Sua fala possuía algo de afetuosamente demolidor. Desmontava conceitos sem humilhar pessoas. E nisso residia uma de suas elegâncias intelectuais

Por Jones Figueirêdo Alves Publicado em 21/05/2026 às 5:00

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Há pessoas que ensinam por aquilo que dizem. Outras, pelo modo como interrogam. João Maurício Adeodato pertencia a essa segunda espécie rara, a dos homens que fazem da dúvida uma forma superior de inteligência.

Conhecê-lo era ingressar numa conversa que nunca terminava. Não porque lhe faltassem respostas, mas porque desconfiava das respostas prontas. Em João Maurício havia uma curiosa fidelidade à incerteza. Não a incerteza vazia, cética por comodidade, mas aquela inquietação fecunda dos que compreendem que pensar é, antes de tudo, expor-se ao risco de rever convicções.

Sua fala possuía algo de afetuosamente demolidor. Desmontava conceitos sem humilhar pessoas. E nisso residia uma de suas elegâncias intelectuais. Ele sabia que a inteligência arrogante fecha portas; a inteligência aguda, ao contrário, abre corredores. Talvez por isso seus alunos jamais saíssem ilesos de suas aulas. Saíam modificados. Descobriam que o Direito não era um edifício de mármore, mas uma arquitetura verbal erguida sobre disputas humanas, narrativas concorrentes e precários consensos.

João Maurício parecia habitar as palavras como quem conhece as armadilhas da própria casa. Sabia que a linguagem não apenas descreve o mundo, ela o fabrica, o organiza, o legitima. Daí sua permanente vigilância contra os discursos que se apresentavam como naturais, definitivos ou inevitáveis. Para ele, toda verdade excessivamente segura escondia alguma forma de poder.

Mas seria injusto vê-lo apenas como um teórico da retórica. Havia nele algo mais profundo, uma espécie de humanismo melancólico. João Maurício compreendia que os homens necessitam de narrativas para suportar a existência. O direito, a moral, a política, as instituições, tudo isso eram tentativas humanas de ordenar o caos. Talvez por isso nunca tenha aderido ao dogmatismo. O dogmático não suporta a fragilidade. João Maurício, ao contrário, fazia dela uma forma de lucidez.

Quando falava de retórica, não falava apenas de técnicas de persuasão. Falava da própria condição humana. Afinal, viver em sociedade é argumentar continuamente, convencer, justificar, pedir, negar, interpretar, recordar. O homem é um ser retórico porque é um ser inacabado. E João Maurício parecia perceber, como poucos, que a civilização depende menos da certeza do que da capacidade de continuar conversando.

Havia também nele uma ironia fina, dessas que nascem mais da inteligência do que do sarcasmo. Seu humor desmontava solenidades inúteis. Não tinha paciência para pompas acadêmicas nem para vaidades excessivamente ornamentadas. Preferia o brilho da ideia ao brilho da pose. E isso lhe dava uma singular liberdade interior.

Talvez seu maior legado tenha sido justamente ensinar que pensar juridicamente não é decorar fórmulas, mas compreender conflitos humanos em toda a sua dramaticidade. Seus livros jamais foram meros manuais; eram convites ao desconforto intelectual. Quem o lia percebia que o Direito não vive apenas de normas, mas de interpretações, disputas simbólicas, contextos históricos e escolhas morais.

João Maurício tinha consciência de que a linguagem aproxima, mas também separa. Que os homens falam incessantemente porque jamais conseguem dizer tudo. E talvez por isso sua presença fosse tão marcante: porque fazia do diálogo uma experiência autêntica. Conversar com ele era perceber que o pensamento ainda podia ser aventura.

Agora, sua ausência produz essa estranha sensação dos grandes mestres, parecem continuar pensando em algum lugar. Como se a morte atingisse apenas o corpo, mas não a inquietação que deixaram espalhada entre os vivos.

Há intelectuais que constroem sistemas. Outros constroem discípulos. João Maurício construiu interlocutores. Mestre de todos, para sempre. Reflexivo no saber crítico, pensador audaz, educador incomum, engrandeceu o Direito.

E talvez seja essa a forma mais alta de permanência.

Jones Figueirêdo Alves é Desembargador Emérito do TJPE. Advogado e parecerista

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