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Orgulho de Ser Brasileiro!

Chamar alguém de 'paraíba' com desprezo na voz não é xingamento. É crime. E crime, no Brasil de hoje, tem nome, tipificação e pena.

Por FERNANDO J. RIBEIRO LINS Publicado em 18/05/2026 às 10:27 | Atualizado em 18/05/2026 às 10:30

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Foi exatamente isso que aconteceu em 2 de maio de 2026, num restaurante da zona sul do Rio de Janeiro. Um barman nordestino foi alvo de insultos que usavam sua origem como arma — 'paraíba' despejado como humilhação, como se a terra de onde um homem vem pudesse servir para diminuí-lo diante de todos. A Polícia Civil do Rio investiga o caso como injúria por preconceito. Áudios foram entregues ao inquérito. Testemunhos confirmam que não foi episódio isolado.
O que torna o episódio ainda mais indigesto é saber quem praticou as ofensas. Um artista que desfrutava de prestígio no Brasil por décadas — alguém que cultivou para si a imagem de refinamento e erudição. Esse verniz, agora, rachado de vez. O que aparece por baixo é o de sempre: o preconceito que se julgava sofisticado. Preconceito não é deslize; é convicção que escapou do controle — e os áudios gravados antes, com os mesmos xingamentos ao mesmo trabalhador, provam que havia muito de deliberado no que se tentou chamar de incidente.
A Justiça brasileira já deixou clara a gravidade dessa conduta. A xenofobia — o preconceito fundado na origem regional — é crime de racismo. Quem pratica discriminação por procedência nacional está sujeito a reclusão de um a três anos e multa. E desde 2021, quando o STF equiparou a injúria racial ao racismo tornando-o imprescritível, ficou assentado: não há prazo que apague o crime. Quem xinga, deve responder — independentemente de fama, de discos ou do vinho que se julgue ter o direito de abrir sem pagar a rolha.
Pois ofender um nordestino não é ofender apenas um homem. Não é ofender apenas uma região. É ofender o Brasil inteiro. Porque este país só existe, só respira, só pulsa, porque é feito de muitos ao mesmo tempo. A riqueza brasileira vem da diversidade insubstituível de suas regiões, que se completam e se sustentam. Sem qualquer de suas partes, o Brasil não é o Brasil.
Que o autor das ofensas responda por elas como qualquer cidadão responderia. A fama não é salvo-conduto. O prestígio não anula o crime!
Dito isso — e é fundamental que seja dito —, seria um erro deixar que episódios como esse definam o retrato de um país. O Brasil é também isso: capaz de seus piores momentos, como qualquer país. Mas é, sobretudo, muito mais do que eles.
O brasileiro carrega um orgulho que não precisa de decretos para existir. Está na garra de quem atravessa o país em busca de oportunidade sem abrir mão das raízes. Está na generosidade com que povos de origens tão distintas convivem, trocam e criam. Está na música que o mundo reconhece, na culinária que surpreende, na arte que emociona, no esporte que une multidões de norte a sul.
Este é um país onde o sotaque do vizinho é diferente do seu — e isso é riqueza, não hierarquia. Onde cada estado carrega uma história própria que, somada às demais, forma algo que nenhum deles poderia ser sozinho.
O orgulho de ser brasileiro não se apoia na negação dos problemas. Apoia-se na certeza de que este povo, com todas as suas contradições, tem uma capacidade extraordinária de seguir em frente — de se indignar com o que é errado, de exigir o que é justo, e de continuar construindo, com as mãos e o coração, um país que ainda está se tornando o que pode ser. E que vale muito a pena!

Fernando J. Ribeiro Lins, advogado, presidente da OAB Pernambuco (2022-2024) e Conselheiro Federal da OAB (2025-2027)

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