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Terceirização emocional e o cuidado artificial

Em um mundo que começa a automatizar até as emoções, talvez o gesto mais importante seja também o mais simples: estar emocionalmente disponível.

Por MARIA PAULA CRUZ Publicado em 11/05/2026 às 13:49 | Atualizado em 11/05/2026 às 13:52

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Há vinte e cinco anos, o cinema nos apresentou uma inquietação que parecia distante demais para ser real. Em A.I. Artificial Intelligence, dirigido por Steven Spielberg, acompanhamos a história de uma criança robô programada para amar. Inspirado em Pinóquio, esse personagem vive uma jornada profundamente humana: quer se tornar real para recuperar o amor da sua família.

Naquele momento, a pergunta era quase filosófica: até que ponto uma máquina pode sentir? Hoje, a pergunta muda, e talvez seja ainda mais desconfortável: até que ponto o humano está deixando de sentir por si mesmo? Vivemos uma inversão silenciosa. O que antes parecia ficção já faz parte do cotidiano. Plataformas como o ChatGPT passaram a ocupar um espaço sensível: o aconselhamento emocional. Pessoas desabafam, pedem orientação, buscam validação, dividem sentimentos que antes pertenciam às relações humanas.

Ao mesmo tempo, tecnologias simulam presença, escuta e empatia com precisão crescente. A máquina aprende a responder como gente, enquanto o humano, pouco a pouco, desaprende a lidar com o próprio sentir. Foi nesse cenário que, durante o SXSW, a futurista Amy Webb trouxe um conceito que merece nossa atenção: a terceirização emocional. É quando começamos a delegar aquilo que é mais íntimo, entender o que sentimos, organizar emoções e buscar acolhimento, à inteligência artificial. O que antes nascia no encontro, na conversa, no olhar, passa a acontecer mediado por uma tela.

Mas existe uma parte dessa história que não está nas grandes discussões sobre tecnologia. Está dentro de casa. Enquanto o mundo avança, as crianças estão aprendendo, todos os dias, o que significa sentir. E elas aprendem não pelo que a gente fala, mas pelo que a gente vive com elas. Aprendem na conversa no carro, no momento em que alguém realmente escuta o que elas têm a dizer, quando um adulto se abaixa, olha nos olhos e pergunta, com verdade: o que você está sentindo?

Aprendem quando percebem que podem falar sobre medo, tristeza, frustração ou alegria sem serem interrompidas, corrigidas ou ignoradas. Quando esses espaços não existem, algo ocupa esse lugar. E hoje, muitas vezes, esse lugar está sendo preenchido por uma tela. Uma resposta rápida, uma validação imediata, um conforto fácil, mas sem vínculo. Algo que até acalma naquele momento, mas não ensina a lidar com emoções de verdade. E é aqui que mora o risco mais silencioso: formar uma geração que não aprende a sustentar o que sente sem precisar de uma mediação tecnológica.

Na filosofia de Platão, no diálogo Fedro, aparece a ideia de pharmakon: aquilo que pode ser, ao mesmo tempo, remédio e veneno. A tecnologia é exatamente isso. Pode ajudar, orientar, ampliar possibilidades, mas também pode ocupar lugares que são essencialmente humanos. O problema não está na tecnologia. Está no espaço que a gente deixa vazio. Porque, no fim, a terceirização emocional não começa na inteligência artificial. Começa na ausência. Na falta de tempo, de escuta, de presença de verdade. No jantar em silêncio, no olhar que não se encontra, na rotina que atropela aquilo que realmente importa. Há quem, como Stephen Hawking, tenha alertado sobre os riscos da inteligência artificial.

Mas talvez o maior risco não esteja em um futuro distante, e sim em um presente que, pouco a pouco, perde sua humanidade. Diante disso, o caminho não é rejeitar a tecnologia. É fortalecer aquilo que ela nunca vai substituir: estar presente, olhar nos olhos, escutar de verdade, ajudar a nomear sentimentos, mostrar, pelo exemplo, que sentir não é fraqueza — é parte de quem somos.

Em um mundo que começa a automatizar até as emoções, talvez o gesto mais importante seja também o mais simples: estar emocionalmente disponível. Porque é nesse espaço invisível, cotidiano e profundamente humano que se forma não só a criança de hoje, mas o adulto que ela vai se tornar. E isso, nenhuma tecnologia será capaz de fazer no lugar de uma família.

Maria Paula Cruz

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