IA: a Bomba Atômica do Século XXI
O Brasil precisa urgentemente investir mais em educação, ciência, infraestrutura tecnológica e formação de talentos........................
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A Inteligência Artificial (IA) já é tema do dia a dia, obrigando-nos a refletir serenamente sobre suas implicações presentes e futuras, aliás, como o presidente do JCPM, João Carlos Paes Mendonça, vem promovendo há semanas. Neste texto criaremos um ambiente diferente para uma abordagem do desafio.
O Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), firmado em 1968, nasceu no auge da Guerra Fria para impedir que a corrida nuclear saísse do controle.
O instrumento reconheceu o arsenal das potências já nuclearizadas, proibiu novos países de desenvolver bombas atômicas e prometeu, em troca, acesso à energia nuclear para fins pacíficos, em um futuro de desarmamento global.
Durante décadas, o TNP e os acordos derivados ajudaram a limitar a propagação nuclear e tornaram-se pilares da segurança mundial. Contudo, suas contradições ficaram evidentes. Potências nucleares mantiveram e modernizaram seus arsenais, enquanto países como Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel desenvolveram armas fora do tratado, ao passo que outros ainda buscam essa conquista.
Atualmente, diante da guerra na Ucrânia, das tensões sino-americanas, da resistência americana em apoiar a OTAN e do enfraquecimento das instituições multilaterais, cresce a lógica da dissuasão militar, instando nações ameaçadas a rever princípios filosóficos kantianos.
Em um exercício de imaginação, idealizemos uma articulação de grandes potências ou conglomerados empresariais, ligados ou não a governos, criando um Tratado de Não Proliferação da Inteligência Artificial (TNPIA).
Os argumentos seriam nobres: proteger a humanidade dos riscos de a IA assumir o controle do mundo, dos humanoides de Blade Runner desafiarem a Primeira Lei da Robótica de Isaac Asimov — "um robô não pode ferir um ser humano nem, por omissão, permitir que ele sofra qualquer dano" — ou ainda de o terrorismo digital ganhar poder e rivalizar com Estados-nações.
O acordo permitiria que as grandes potências mantivessem sua superioridade tecnológica, enquanto impor-se-iam severas restrições aos países ainda incapazes, ou lenientes, de competir nesse campo.
Limites ao acesso a chips, supercomputadores e bases de dados seriam apresentados como medidas de segurança global. Na Times Square, um letreiro brilhante projetaria: "COM O TNPIA, O MUNDO SERÁ MAIS SEGURO".
Na prática, o planeta seria dividido entre potências algorítmicas e colônias analógicas. Se parece utopia, não é. A disposição do presidente Donald Trump em transformar a IA em tema central de segurança nacional demonstra que os Estados Unidos compreenderam que ela será o principal instrumento de poder do século XXI.
A corroborar essa afirmação, na semana que vem, na reunião de cúpula entre EUA e China, esse será o tema dominante.
Controlá-la significa influenciar economias, guerras, informações e comportamentos sociais.
As novas diretrizes de Washington buscam a conquista e o domínio hegemônico dessa tecnologia, a fim de projetar poder não apenas sobre seu território, mas sobre o próprio mundo.
Para o Brasil, a intenção do presidente Trump é um alerta inequívoco.
Permanecer preso a disputas ideológicas tacanhas significará aceitar uma posição periférica na nova ordem global. Significará tornar-se, mais uma vez, possessão de nações poderosas.
Quem dominar a IA assumirá o controle da sociedade, como um novo Grande Irmão - referência ao romance 1984, de George Orwell.
Segundo a Consultoria Gartner, o mundo investe em IA cerca de 1,5 trilhão de dólares por ano, enquanto o Brasil, com base no Plano Brasileiro De Inteligência Artificial (PBIA), 26 bilhões de reais nos próximos quatro anos.
O que dizer diante dessa diferença brutal?
O país precisa urgentemente investir mais pesadamente em educação, ciência, infraestrutura tecnológica e formação de talentos. Instrumentos disponíveis, mas esquecidos pelas lideranças no fundo das prateleiras do poder.
IA: a Bomba Atômica do Século XXI
Otávio Santana do Rêgo Barros, general de Divisão da Reserva