Artigo | Artigo

Inteligência Artificial

Quando me perguntam o que acho da Inteligência Artificial, respondo que não posso falar sobre um assunto que absolutamente não conheço.

Por ARTHUR CARVALHO Publicado em 06/05/2026 às 0:00 | Atualizado em 08/05/2026 às 11:08

Clique aqui e escute a matéria

O prêmio Nobel Ernest Hemingway nos aconselhava a só abordar tema que conhecesse bem.

Seguindo seu conselho, quando me perguntam o que acho da inteligência artificial, que tanto intriga a humanidade, respondo que não posso falar sobre um assunto que não conheço.

Pra não dizer que estou fugindo da parada, quando insistem, digo que quero ver se essa tal de inteligência artificial sabe se Capitu traiu ou não Bentinho. E afirmo: traiu, ou não traiu?

Se o leitor amigo não estiver satisfeito, vou com mais duas perguntas: a inteligência artificial será capaz de escrever um romance igual ou mais importante do que Lord Jim, de Joseph Conrad?

Quando um famoso crítico literário, cujo nome esqueço, confessou ao novelista polonês, que escrevia em inglês, ser seu admirador, mas queixou-se de que ele era tão hermético que não entendia algumas páginas de seus livros, o filósofo dos mares desculpou-se humildemente e de bom humor respondeu: Nem eu.

Algum imortal da APL já leu Um vagabundo toca em surdina, do polêmico norueguês Knut Hamsun? Se por acaso leu, responda se a nossa querida inteligência artificial será capaz de escrever um romance desse quilate.

Não vou falar em Dostoiévski, Kafka e T. S. Eliot, nem nos brasileiros Guimarães Rosa e Lúcio Cardoso.

Este foi a grande paixão fracassada de Clarice Lispector, que escreveu os romances Perto do coração selvagem, A paixão segundo G. H. e Água viva; a novela A hora da estrela e vários contos, entre eles Laços de família, e adorava Recife, onde morou parte de sua infância na antiga Praça Conde D'eu, hoje a abandonada Praça Maciel Pinheiro, e tomava sorvete de frutas na lendária Sorveteria Gemba.

Alguns leitores perguntam por que cito tanto Dostoiévski, Conrad e Machado de Assis nas minhas crônicas.

Cito Dostoiévski, entre outros motivos, porque em sua extraordinária obra ele propõe grandes questões que permanecem originais e envolventes mesmo depois de mais de um século, ajudando a criar o gênero de ficção criminal, passando pela desconfortável neblina moral, como em Recordações da casa dos mortos, Crime e Castigo e Os irmãos Karamazov.

Tenho me lembrado muito desse gigante russo ao acompanhar, estarrecido, perplexo e incrédulo, as entrevistas de Donald Trump; cito Conrad porque combateu o infame e desumano colonialismo europeu. Sobre o Velho da montanha não vou me alongar.

Arthur Carvalho, da  Academia Pernambucana de Letras - APL

 

Compartilhe

Tags