Sérgio Gondim: Pernambuco superlativo
Tem muito mais coisa superlativa: o maior grito de gol do mundo, o maior bloco de carnaval, a pelada mais antiga ininterrupta de Dr. Oscar...
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Quem desembarca em Pernambuco imagina que está chegando em uma monarquia com reis por todos os lados. É rei da carne de sol, da feijoada, da coxinha, da picanha, da embreagem, da bateria e da buchadinha. Tem rei do brega, do asfalto, do futebol, abacaxi, galinha cabidela e do carnaval. Rainha também não falta. Da tapioca, do chocolate, do samba, da peixada, da mão de vaca e da água de coco. Também não faltam as princesas do Capibaribe, do agreste e da canjiquinha.
Além da realeza encontram muita coisa grande, afinal todo mundo sabe que quando o astronauta pisou na lua e olhou para terra, só conseguiu identificar duas coisas: a grande muralha da China e a Avenida Caxangá.
O Oceano Atlântico, quem não sabe, tem origem na união do Capibaribe ao Beberibe e ainda com sobras para uma enchente ou outra. Em linha reta para direita e esquerda do globo terrestre, seguindo na exata latitude do Recife, nas mesmas condições climáticas, dizem que não existe cidade melhor, tirando Denpasar na Indonésia que não vale porque ninguém ouviu falar dela.
Tem muito mais coisa superlativa: o maior grito de gol do mundo, o maior bloco de carnaval, a pelada mais antiga ininterrupta de Dr. Oscar, o maior São João e, disparado, o maior teatro ao ar livre do mundo. A maior concentração de bonecos gigantes do mundo, o maior espetáculo de frevo ao ar livre, o maior centro de artes figurativas em Caruaru onde a feira também é a maior. Existe destaque internacional até em termos de ataques de tubarão.
É verdade que também temos uma das maiores desigualdades do mundo, a maior vergonha das palafitas, o maior emaranhado de fios, o recorde de plástico nos canais, os maiores buracos nas ruas e estradas, os canos de escape mais barulhentos, o recorde de batidas de motos no retrovisor e de frente com os carros, o recorde de golpes pela internet, o maior atraso na educação de base e, no ápice da pirâmide, a maior falta de noção do que é ser bem-educado. Também é recorde mundial de paciência e acomodação em relação ao tempo que se espera para que a situação melhore.
Mesmo assim, há muito tempo chegamos em todo lugar do mundo nas ondas do rádio, mas de Pernambuco para o Oscar, é novidade. Quando o homem pousar em Marte e olhar para Terra, vai enxergar também uma perna cabeluda.
Pena que aqui não exista um parque para homenagens, sem imitar a calçada da fama, mas com estátuas gigantes de Felipe Camarão, Joaquim Nabuco, Heroínas de Tejucupapo, Capiba e Kleber Mendonça. O pernambucano não tem facilidade de reconhecer e elogiar mérito individual. Sempre procura um defeito, como quem sofre de certa admiração infeliz. Agora, acredite, teve gente procurando defeito em Kleber Mendonça. O cabra, com toda serenidade que lhe é peculiar, chegou ao Oscar e tem quem, antes de reconhecer e elogiar, procura puxar para baixo como caranguejo na cesta. São os reis da reclamação que criticam até o chapéu de couro de João Gomes, sem se dar conta do valor que tem para afirmação e autoestima do nordestino.
História bonita a do Kleber.
Grato rapaz, pelo bem que você nos fez. Podemos dizer bem alto que aqui temos muitos reis e chegou mais um. De Pernambuco para o mundo, acabamos de coroar o rei da sétima arte.
Sérgio Gondim, médico