Arthur Carvalho: Simão Bacamarte
Apesar de rico, com dinheiro ganho com o suor do seu rosto, não esquece e combate, na medida do possível, a mendicância nos sinais de trânsito...
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Pouco depois de ver na TV um especial de Cartola no qual ele se queixa humildemente de R. C. não ter gravado seu belíssimo samba “As rosas não falam”, pois, segundo o Terrível “as rosas falam”, troco de canal e assisto a outro especial, este com Seu Jorge ao violão, entrevistado por um sambista cujo nome não sei. Que diferença! Seu Jorge passou o tempo todo denunciando a pobreza que assola o país. Apesar de rico, com dinheiro ganho com o suor do seu rosto, não esquece e combate, na medida do possível, a mendicância nos sinais de trânsito e os milhares de sem-teto e drogados.
Seu temperamento difere do de R. C. numa coisa importantíssima: enquanto o Cara é vaidoso, Seu Jorge é humilde. Enquanto o Rei se recusa a gravar Cartola, quando o entrevistador chamou Seu Jorge de mestre, o compositor mostrou-se um tanto constrangido e protestou baixinho: “Mestre foi Dorival Caymmi.” E começou a cantar, quase sussurrando, ao violão: “Esse amor que não esqueço, e que teve seu começo numa festa de São João”, e completou: “Noel Rosa foi outro mestre.” Aquilo lavou meu peito.
Falar nisso, enquanto as nevascas paralisam Nova Iorque, causando centenas de vítimas fatais, com algumas morrendo congeladas nas ruas e praças públicas, as enchentes continuam a acontecer no Rio Grande do Sul, em Juiz de Fora e em Ubá, com 80 moradores mortos em tragédias climáticas; Trump diz que tudo isso é irrelevante e mentira.
Se ele é do time de São Tomé, que só acredita no que vê, podia dar um pulinho em Juiz de Fora e aproveitaria a oportunidade para subir um pouquinho até Barbacena e passar uma temporada no sanatório da cidade, onde muitos famosos se trataram, inclusive Heleno de Freitas. Depois, descia de carro blindado até Itaguaí, no Rio de Janeiro, para conhecer seu amigo Simão Bacamarte.
Pena terem fechado nossa saudosa e folclórica Tamarineira; do contrário, poderíamos reservar um cômodo confortável para ele. Isso me recorda, quando tínhamos um possesso solto na buraqueira, perturbando todo o Estado de Pernambuco, desrespeitando leis, costumes, jurisprudências, religiões, autoridades e instituições impunemente. E como não havia quem o prendesse nem processasse, suas vítimas desabafavam: “esse, só internando na Tamarineira!”
Arthur Carvalho – Associação Brasileira de Imprensa - ABI