Cláudio Sá Leitão: A ousadia da turma do Master
O ex-banqueiro do MASTER foi preso por utilizar a estrutura do banco para captar recursos, pagando taxas muito acima das praticadas no mercado
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O escândalo financeiro envolvendo o Banco Master (MASTER) foi uma das maiores fraudes corporativas da história do mercado de capitais brasileiro. O MASTER funcionava, na prática, como um banco de fachada, operando como uma organização voltada aos interesses do seu ex-presidente.
O ex-banqueiro do MASTER foi preso por utilizar a estrutura do banco para captar recursos, pagando taxas muito acima das praticadas no mercado e, posteriormente, direcionava empréstimos que favoreciam empresas de sua propriedade e de seus familiares.
Como o banco já se encontrava à beira da insolvência, tentou repassar 49% das ações do MASTER, já em situação falimentar, ao estatal Banco Regional de Brasília (BRB), faltando pouco para que a operação fosse concretizada. Na tentativa de viabilizar essa transação, contou com o apoio da diretoria do BRB e do governador do Distrito Federal.
O Banco Central do Brasil (BCB), que já tinha identificado a transferência de cerca de R$ 12 bilhões em créditos sem lastro do MASTER, acabou barrando a venda desse banco ao BRB. Diante desse cenário, resta agora o BRB lidar com os prejuízos decorrentes da operação envolvendo o MASTER, a fim de preservar sua própria solvência.
A turma do ex-banqueiro do MASTER não se restringia apenas a irregularidades financeiras. Há indícios de que integrantes dessa turma teriam corrompido servidores do BCB. A forma de atuação e a ousadia adotadas remetem a práticas típicas de organizações criminosas, estruturadas para extrapolar fragilidades institucionais e usufruírem dos três poderes da República.
Essa turma do MASTER atuava em pelo menos cinco frentes principais:
(1) Financeiro - responsável pelo rombo contábil, mediante superavaliação de ativos e de criação de estruturas fraudulentas que tornaram o banco ilíquido e comprometeram a saúde financeira do MASTER;
(2) Corrupção institucional – voltada a cooptação de servidores públicos, especialmente no âmbito do BCB;
(3) Ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro - com utilização de empresas de fachada e laranjas para dissimular a origem e a movimentação de recursos;
(4) Intimidação e obstrução de justiça - responsável pelo monitoramento ilegal de adversários, jornalistas e autoridades. Essa frente torna o escândalo do MASTER ainda mais preocupante. O ex-banqueiro contava com um ex-servidor bem remunerado, que executava atividades voltadas a obtenção de informações sigilosas, monitoramento de pessoas e neutralização de situações consideradas sensíveis;
(5) Eventos organizados pelo MASTER - festas e encontros promovidos pelo ex-banqueiro com a participação de representantes dos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário).
Tudo indica que, com o avanço das investigações conduzidas pela Policia Federal (PF) novas frentes de atuação dessa estrutura poderão surgir em breve. O ex-presidente do MASTER demonstrou ousadia e ambição sem limites ao montar um império que operava à margem da lei, deixando, até o momento, um rombo estimado em cerca de R$ 52 bilhões.
Caso permanecesse em liberdade, é provável supor que continuaria utilizando todos os meios ao seu alcance, para preservar seus interesses, inclusive pressionando ou intimidando aqueles que tentassem colocar obstáculos em seu caminho. Até que seja julgado, com todos os recursos que a lei lhe assegura, o ex-banqueiro pode representar uma ameaça à ordem pública.
Por esta razão, ele e a sua turma do MASTER devem permanecer presos, preventivamente, até o curso das investigações e do processo judicial seja concluído, ou até que, eventualmente, decidam colaborar com a justiça, por meio de um acordo de delação premiada.
Cláudio Sá Leitão – Consultor de Empresas e CEO da Sá Leitão Auditores e Consultores.