Ingrid Zanella: Mais mulheres, mais futuro
Além de reconhecer a trajetória de quem resistiu, devemos construir condições para que mais mulheres possam permanecer, ascender, liderar e decidir
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No Brasil de hoje, as mulheres já são maioria da população — 51,5% dos brasileiros, segundo o IBGE — e também apresentam, em média, maior escolaridade do que os homens: em 2022, 20,7% das mulheres com 25 anos ou mais tinham ensino superior completo, índice que, entre os homens, era de 15,8%.
Esses números dizem muito sobre o país que já existe e, ao mesmo tempo, sobre o país que ainda precisamos construir: um Brasil em que a presença feminina deixe de ser maioria apenas nos dados e passe a se refletir, com a mesma força, nos espaços de comando e nas mesas de decisão, lugares em que o futuro é efetivamente definido.
Por isso, o Dia Da Mulher é, antes de tudo, um marco de memória e compromisso. Memória das lutas que abriram caminhos para que mulheres chegassem a espaços que durante séculos lhes foram negados.
E compromisso com aquilo que ainda precisa ser transformado para que a presença feminina não seja exceção, não seja somente símbolo ou concessão, mas parte natural da vida pública, institucional e democrática.
Sempre é preciso olhar para trás com respeito, mas, principalmente, olhar para frente com responsabilidade. Para além de reconhecer a trajetória de quem resistiu, devemos trabalhar no sentido de construir condições para que mais mulheres possam permanecer, ascender, liderar e decidir.
E essa é uma tarefa que diz respeito à sociedade como um todo. E diz respeito, de modo especial, às instituições.
Na advocacia essa agenda é especialmente necessária. Falar de mulheres é falar de dignidade profissional, de reconhecimento, de oportunidade, de segurança e de condições reais para o exercício do trabalho.
É também falar de liderança. Quando mulheres ocupam espaços de comando, não há apenas mudança de nomes ou de rostos, mas mudança de perspectiva: ampliação da escuta, novas prioridades, sensibilidade institucional para temas que durante muito tempo foram tratados como laterais, quando na verdade dizem respeito ao centro da vida social.
Na OAB Pernambuco, temos procurado transformar essa compreensão em políticas concretas, porque não nos interessa um discurso vazio sobre representatividade. Interessa-nos, sim, produzir condições reais para que mais mulheres sejam protegidas e acolhidas, que sejam reconhecidas.
A Rede de Apoio a Mulheres Vítimas de Violência Doméstica nasce dessa visão. Trata-se de uma iniciativa que reafirma que nenhuma instituição comprometida com a cidadania pode permanecer indiferente à violência que marca a vida de tantas mulheres. Acolher, orientar e apoiar são verbos que tiramos da retórica e na OAB ganhou forma na prática institucional.
Nessa mesma direção, firmamos um termo de cooperação com a Secretaria da Mulher do Estado de Pernambuco para o atendimento de mulheres vítimas de violência.
Essa articulação entre OAB e poder público mostra que enfrentar um problema estrutural exige responsabilidade compartilhada, além de coordenação e compromisso. Quando instituições se unem para proteger mulheres, a mensagem que se transmite é a de que a violência não será tratada como assunto privado ou secundário.
Também compreendemos que a igualdade precisa alcançar as condições materiais da vida profissional. A anuidade diferenciada para mulheres gestantes e lactantes parte do reconhecimento de que a experiência da maternidade, embora deva ser celebrada, também impõe desafios, custos e sobrecargas que não podem ser ignorados. Uma instituição justa não pode fechar os olhos às desigualdades reais, mas criar instrumentos para corrigi-las, garantindo que a trajetória profissional das mulheres não seja punida justamente nos momentos em que mais precisam de apoio.
O mesmo espírito orienta o Selo Escritório Amigo da Mulher Advogada. Ao estimular ambientes mais justos, promover empregabilidade, qualificação e capacitação, a OAB Pernambuco afirma que a equidade também se constrói no cotidiano das relações de trabalho. Não basta defender a presença feminina em tese, é preciso fomentar ambientes em que mulheres possam desenvolver plenamente suas capacidades, sem discriminação, sem barreiras invisíveis e sem a sensação de que precisam escolher entre existir profissionalmente ou sobreviver às estruturas.
E na OAB Pernambuco levamos isso muito a sério.
Outra iniciativa que nos anima é o projeto que lançaremos nos próximos dias, a Quinta da Mulher Advogada, já em fase final de formulação com a Secretaria da Mulher.
A proposta é que, na última quinta-feira de cada mês, tenhamos disponível uma estrutura com psicólogos para o atendimento exclusivo de mulheres, mediante agendamento prévio, em uma ação que reconhece algo que por muito tempo foi negligenciado: a sobrecarga emocional. Cuidar da saúde psicológica também é política de valorização e proteção. Também é afirmação de dignidade.
Essas ações se somam a campanhas permanentes contra a violência e a outras iniciativas voltadas à representatividade feminina, dentro e fora da advocacia. Todas elas partem de uma mesma convicção de que não há avanço verdadeiro sem mulheres respeitadas e presentes nos espaços em que as decisões são tomadas.
Compromisso que também se expressa nas decisões estruturantes que ajudam a redesenhar o futuro da própria Ordem. Em setembro do ano passado, o Conselho Pleno da OAB-PE aprovoua atualização das regras para a eleição do Quinto Constitucional, adotando cotas de gênero e racial na composição das listas sêxtuplas. A medida assegura a destinação de, no mínimo, três vagas para mulheres, sendo uma delas reservada a uma mulher negra. Mais que corrigir uma distorção histórica, estamos reafirmando que igualdade, diversidade e representatividade precisam estar inscritas também nos critérios de escolha e nos espaços de maior projeção e poder.
Uma instituição mais feminina em sua composição, em sua escuta e em sua capacidade de resposta é uma instituição melhor e mais conectada com a realidade, mais apta a compreender a complexidade da vida e mais preparada para responder às demandas da sociedade. Ampliar a presença de mulheres em posições de decisão não é um favor, tendo em vista ser esta uma exigência de modernização institucional e de amadurecimento democrático.
A luta das mulheres não mora apenas na memória. Ela já transforma o presente e abre, todos os dias, as portas do amanhã. O Brasil que queremos construir passa, necessariamente, por essa convicção: mais mulheres, mais futuro. Mais mulheres protegidas, mais mulheres reconhecidas, mais mulheres liderando, decidindo e ocupando com naturalidade os espaços de comando. É assim que se fortalece a democracia e se renovam as instituições, desenhando um país mais inteligente e mais humano.
*Ingrid Zanella, presidente da OAB-PE