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Casos e causos em movimento (7)

Rompemos um antigo preconceito ao promover o tombamento do Terreiro do Pai Adão, situado em Água Fria

Por ROBERTO PEREIRA Publicado em 01/03/2026 às 7:05

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URUCUBACA: - Quando estive à frente da Fundarpe, o presidente do Conselho Estadual de Cultura era o sociólogo Gilberto Freyre. Juntos, rompemos um antigo preconceito ao promover o tombamento do Terreiro do Pai Adão, situado em Água Fria — gesto de reconhecimento à força e à legitimidade das tradições afro-brasileiras.

Anos depois, já na Presidência da Fundação de Cultura Cidade do Recife, recebi do próprio Pai Adão – amparado pela Constituição – um pedido de isenção de impostos municipais. Manifestei-me favoravelmente e determinei a tramitação do processo, que foi deferido.

A imprensa, atenta ao pleito, noticiou que, caso eu fosse contrário, o solicitante lançaria sobre mim a danação da “urucubaca”. Respondi, sereno: nada havia a temer. Atendido o pedido, a urucubaca não seria danação, mas gratidão.

CASCUDO: - De Câmara Cascudo, a frase que revela fina ironia e despretensão: “Basta um idiota na família a escrever livros — o idiota sou eu.”

DUDA: - O maestro Duda, ao receber o título de Doutor Honoris Causa, já com o capelo na cabeça, não conteve o entusiasmo: “Agora sô dotô!”. A espontaneidade provocou risos em cascata e aplausos ainda mais calorosos.

MARIANA: - Em 2007, reunia-me em Brasília com o então presidente da Infraero, Carlos Wilson, e diretores da empresa, quando meu celular tocou.

— Quem é? — perguntou o presidente.
— Mariana, minha neta primogênita, quatro anos.
— Atenda, Roberto.
— Alô, Mari.
— Vovô, está onde?
— Em Brasília, numa reunião com o presidente da Infraero.
— Tem televisor aí?
— Tem, amor.
— Então, peça para se afastar, porque está passando Pica-Pau no canal 12. Está muito bom!
Prometi assistir. Ao desligar, Carlos Wilson quis saber do que se tratava.
— Nada demais. É para eu assistir Pica-Pau no canal 12.
— Quer assistir? Posso esperar!

A sala explodiu em gargalhadas. Entre planilhas e protocolos, a leveza da infância invadira a formalidade da reunião.

GAFE: Meu pai sofreu um infarto aos 55 anos, numa época em que planos de saúde eram raros. Num sábado à tarde, fui a um renomado laboratório buscar resultados de exames, cujo valor — 1.150 cruzados — quase consumia os recursos de que minha mãe dispunha.

Ao chegar, a atendente informou que nada precisaria ser pago: tratava-se de uma cortesia. Pedi para agradecer ao médico.

— Não há o que agradecer. Seu pai é um grande homem.
— Obrigado.
— Ainda será reconhecido como o melhor governador da história de Pernambuco.
— Doutor, creio haver engano. Não sou filho do governador Nilo Coelho, mas do escritor Nilo Pereira.
— Nesse caso, o senhor pode voltar à recepção e pagar a conta.
Foi a primeira vez que a gratidão perdeu o valor diante do equívoco social. Paguei — o caráter assim me impunha — e saí com um sorriso amarelo, desses que revelam mais espanto que alegria.

O SAPATO: Um amigo engenheiro, dado a aventuras extraconjugais, vivia às voltas com suspeitas domésticas. Certo sábado, após uma escapada vespertina, voltou cedo para casa: iria a um casamento com a esposa e a sogra.

No trajeto, ao passar a mão por trás do banco do carro, percebeu um sapato esquecido. Sem hesitar, lançou-o pela janela.

Já próximo à igreja, a sogra notou a ausência de um dos pés do sapato. Instalou-se o alvoroço. Retornaram à residência, trocaram o par, e a cerimônia seguiu seu curso. Entreolhares desconfiados e explicações improvisadas, o episódio foi atribuído aos mistérios do além — solução conveniente para preservar silêncios.

CAPIBA: O comunicador Aldemar Paiva, homem culto e espirituoso, apresentava o programa Pernambuco Você é Meu, na PRA-8. Entre seus personagens — Seu Encrenquinha e Dona Pinoia —, exercitava um humor irreverente.

Certo dia, anunciou que Capiba, conhecido por criar gatos, desejava ampliar sua coleção e aceitava doações. Bastou a brincadeira para que a casa do compositor, na Rua Barão de Itamaracá, fosse tomada por felinos ofertados por ouvintes entusiasmados.

Capiba enfureceu-se. Chamou Aldemar, pelas costas, de “tremendo fdp” e, ao encontrá-lo, foi mais direto:
— Você é um grande cabra safado. Merecia uma surra!

Os circunstantes riram; Aldemar, constrangido, parecia ponderar os limites do humor quando este ganha asas demais.

MARECHAL: Hermes, apelidado de Marechal, assessor na Fundação de Cultura Cidade do Recife e amigo leal, acompanhava-me nas jornadas do Carnaval da Avenida Boa Viagem. Após duas noites em claro, combinei que me recolheria às três da madrugada, mas que ele me telefonasse diante de qualquer problema.

Às cinco da manhã, o telefone tocou. Sobressaltado, atendi:
— Algum problema, Marechal?
— Nenhum, presidente. Ligo apenas para informar que está tudo calmo e que o senhor pode continuar dormindo em paz.

Rimos ambos: ele, pelo excesso de zelo; eu, pelo alívio da boa notícia.

Na conclusão desses casos e causos — em que o riso humaniza a memória — recordo Cartola:
“A sorrir, eu pretendo levar a vida...”

Roberto Pereira – Cadeira 35 – Academia Pernambucana de Letras

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