Sexta-feira 13: crenças e estigmas
Acabamos de passar por uma sexta-feira 13, uma outra virá no próximo mês de março e também outra em novembro ainda este ano de 2026
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Por três vezes durante o ano corrente o dia 13 alcançará o dia da sexta-feira, fazendo da data supostamente aziaga um ritual de simbologias. Acabamos de passar por uma, uma outra virá no próximo mês e também outra em novembro. Ano passado, houve uma única (junho) e no próximo, igualmente uma (agosto), como sucederá, ainda, no ano subsequente (outubro). Três vezes no ano, não é comum. Ainda bem.
Impactante de caos, é dia de desequilíbrio por importar a transgressão ou a quebra da harmonia ao exceder o 12 (número fechado/completo), havido como puro e sagrado, número de totalidade na íntegra (completude) dos meses, dos signos do Zodíaco, dos apóstolos, dos deuses do Olimpo ou das tribos de Israel.
Dia negativo, em ruptura da ordem das coisas, é visto nas superstições com uma força simbólica do nefasto, causando medo e temores por crenças e estigmas ao longo de muitos tempos. A superstição opera como narrativa estruturante: ela dramatiza a passagem da ordem para o risco.
Afinal, é o dia narrado pela tradição cristã onde na sexta-feira Cristo é crucificado, após reunir-se com os apóstolos, sendo 13 os presentes à mesa na Última Ceia. Diante dessa fusão de fatos, Judas, como o traidor, é o décimo terceiro (13).
Na mitologia escandinava, um banquete em Valhalla, realizado por Odin, reuniu 12 divindades; tendo Loki, deus da discórdia e do fogo, por não ter sido convidado, provocado a morte de um deles, desencadeando a tragédia.
Na teoria mitológica conta-se ainda que a deusa da fertilidade Frigga, esposa de Odin, teria sido “demonizada” pela Igreja Católica para forçar a conversão dos bárbaros, que invadiram a Europa no início do período medieval. Por isso, ela se uniu ao demônio e 11 bruxas, e os 13 saíam às sextas-feiras para rogar pragas contra a humanidade. Aqui também o 13 representa o elemento disruptivo.
Entre o sagrado e o perigo, o 13 é número irregular, “impuro” porque ultrapassa a simetria esperada, desorganiza o padrão simbólico; desafia a estabilidade, é sinal de infortúnios. Para Mary Douglas, em “Pureza e Perigo” (1966), aquilo que escapa à classificação é percebido como ameaça.
Então, a ideia de que a sexta-feira 13 é dia de azar resulta da fusão de duas tradições simbólicas distintas, uma ligada ao número 13 e outra ao dia da sexta-feira que, ao longo dos séculos, passaram ao imaginário popular. Anota-se que no Tarô, a carta de número 13 representa a Morte e segundo a tradição judaica o grande dilúvio aconteceu em uma sexta-feira.
O dia corresponderia em seu espectro ao resultado da natureza corrompida da humanidade, quando tende aos seus caminhos negativos. Em menos palavras, seria um dia de desacertos, fraquezas e limitações, na fragilidade inevitável do homem. A maldade humana é inequivocamente filha do mal, ela habita o mundo embora não esteja dominante ou presente na maioria das pessoas.
Historicamente, tem-se que em 13.10.1307 (uma sexta-feira), o rei Filipe IV, da França, ordenou a prisão em massa dos Cavaleiros Templários, incluindo o seu último Grão-Mestre, Jacques de Molay. Depois, a Ordem do Templo foi dissolvida pelo Papa Clemente V que formalizou sua extinção com a bula “Vox in Excelso” em 22.03.1312. O episódio reforçou o imaginário negativo do dia.
Antes disso, outros incidentes ocorreram, certo que Mu, a terra de nossos ancestrais, no Oceano Pacífico, foi destruída em uma Sexta-Feira 13. Assim, seria a origem do medo desse dia, conforme relato do escritor britânico James Churchward (1851-1936), em sua obra “O Continente Perdido de Um”.
O conquistador espanhol Hernán Cortés (1485-1547) marcou o fim do Império Asteca, em 13.08.1521, uma sexta-feira, ao capturar Cuauhtémoc, o governante de Tenochtitlán, a renomeando como Cidade do México. Reverenciado como um herói nacional, Cuauhtémoc representa a resistência indígena contra a conquista espanhola.
Muito adiante, segue-se que em 1907, Thomas Lawson, um corretor de ações, publicou sua obra denominada “Friday, the Thirteenth” (“Sexta-Feira 13”), que serviu de inspiração para o sucesso da franquia de filmes homônima, iniciada em 1980, com o personagem Jason Voorhees, um “serial killer” que atacava suas vítimas nesse dia.
Em reforço das crenças e superstições, assinala-se, dentre muitos episódios:
- (i) O primeiro dos piores incêndios de florestas na história da Austrália ocorreu em uma Sexta-Feira 13, na data de 13.01.1939, onde aproximadamente 20 mil quilômetros de terra foram queimados e 71 pessoas morreram.
- (ii) Em 13.09.1940, sexta-feira, cinco bombas alemãs atingiram o Palácio de Buckingham e destruíram a Capela do Palácio, como parte de uma campanha de bombardeio de Hitler;
- (iii) Foi em 13.12.1968, uma sexta-feira, que o governo militar no Brasil decretou o AI-5 suspendendo direitos e garantias políticas, o que culminou com o fechamento do congresso. Lembro-me bem: nesse dia estava de plantão noturno, como repórter, na redação do nosso JC.
- (iv) O avião da Força Aérea Uruguaia, que conduzia a equipe de rúgbi do “Old Christians Club” caiu na Cordilheira dos Andes em 13.10.1972, uma Sexta-Feira 13. Dos 45 passageiros, 16 sobreviveram por 72 dias em condições extremas. O acidente originou a obra “Sobreviventes: a tragédia dos Andes” (1974) do escritor Piers Paul Read, adaptada ao cinema (1976).
- (v) A sexta-feira de 13.11.2015, enlutou a França com os sete ataques terroristas em Paris, matando 130 pessoas e ferindo mais de 400.
Fica, entretanto, um conforto e uma certeza: haverá sempre um dia melhor à frente; as superstições não devem triunfar (são apenas superstições), o bem sempre vence e as datas não definem destino.
*Jones Figueirêdo Alves é Desembargador Emérito do TJPE. Advogado e parecerista.