Viva a alegria e a paz!
Homenagem do maior bloco de Carnaval de Pernambuco à memória e ao legado de Dom Helder Câmara é inspiradora para uma festa pacífica em comunhão
Clique aqui e escute a matéria
Tudo começava, antes, quando o galo cantava. Hoje a festividade se prolonga, desde as prévias concorridas, passando pela abertura oficial, dois dias antes, até a apoteose do início tradicional e afetivo do Carnaval pernambucano. No sábado de Zé Pereira, o Galo da Madrugada chama os foliões para acordarem cedo, enfrentarem o sol escaldante ou a chuva inclemente, e percorrerem os poucos quilômetros que se transformam num longo deleite atrás das orquestras e dos trios elétricos, no meio da incansável, animada multidão. O Galo emociona o povo, reúne a diversidade, sublima as diferenças e rege o coro de vozes, embala o ajuntamento de passos, fazendo o centro do Recife, pular, suar, gritar, dançar e ferver!
Abençoar e participar da alegria carnavalesca, sem preconceitos, foi um dos exemplos e mensagens que deixou Dom Hélder Câmara, falecido em 1999. O ex-arcebispo de Recife e Olinda sabia da paixão dos pernambucanos pelo Carnaval. E percebeu a força mobilizadora da energia nas ruas, nos olhares, na música compartilhada pelos foliões. O Dom da Paz, como ficou conhecido, abraçou a festa com um largo sorriso, acrescentando ao seu legado de lutas e afetos a imagem de um pacificador da alegria, defensor da vida em sua plenitude.
Em 1975, Dom Hélder falou à rádio Olinda AM: “O Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no Carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Brinque, meu povo querido!”, exaltou. No recado de incentivo ao espírito festivo, a denúncia contra a intolerância e a mesquinhez. A retórica do Dom, não por acaso, seduzia a todos, espalhando sua fama no Brasil e no exterior.
No desfile de 2026, o Galo da Madrugada rende justa homenagem ao Dom do Carnaval. Disseminando a virtude da fraternidade como tema, o maior bloco pernambucano e um dos maiores do país, carrega no peito uma alegoria diferenciada: um coração que simboliza o amor de Dom Hélder pela festa popular, ou melhor, pelo povo em festa. Na alegria carnavalesca, o ícone da Igreja Católica brasileira identificava o momento de comunhão, de congraçamento – e de chance para a paz e o conforto, em contraste com o cotidiano, para a maioria, de violência e desassossego.
O Galo Folião Fraterno representa o humanismo guerreiro de uma das mais queridas personalidades da história brasileira no século passado. Que seja inspiração para a brincadeira sadia, o entusiasmo moderado pela sensatez, e para a solidariedade que precisa nortear os corações em todos os dias do ano, numa nação que segue desigual como Dom Hélder Câmara não gostava de ver, mas alegre e altiva, como sempre o sensibilizava.